Ponte da Barca: Incêndio de Parada podia ter sido contido? Comissão aponta falhas na gestão do combate ao incêndio

Há pouco mais de um ano, os habitantes de Parada, em Lindoso, Ponte da Barca, viveram o que muitos descreveram como “os piores dias das suas vidas” e um verdadeiro “inferno” na terra. O incêndio deflagrou na noite de 26 de julho e, dois dias depois, a 28 de julho, pelas 9h35, era já combatido por 235 operacionais, apoiados por 77 meios terrestres e sete meios aéreos.

Notícias de Viana
27 Ago. 2026 5 mins

De acordo com dados do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), o incêndio consumiu 7.164 hectares de território, incluindo cerca de 10% de uma área integrada no Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG). Criado em 1971, o PNPG é a única área protegida em Portugal com estatuto de parque nacional. Estende-se pelos distritos de Braga, Viana do Castelo e Vila Real, abrangendo um dos mais importantes espaços naturais do país.

Este incêndio, considerado um dos mais expressivos dos últimos anos no Alto Minho, foi o único a ser alvo, na região, de uma análise específica, em 2025, pela Comissão Técnica Independente (CTI), no âmbito da avaliação dos incêndios que, durante o mês de agosto, atingiram várias regiões do território de Portugal Continental.

O relatório recentemente divulgado pela CTI apresenta uma análise abrangente e detalhada da ocorrência, procurando reconstruir a evolução do incêndio e identificar os principais fatores que condicionaram o seu desenvolvimento e a resposta das entidades envolvidas. Entre as várias dimensões analisadas estão as circunstâncias que estiveram na origem e progressão do fogo, as condições verificadas no terreno, a organização da resposta operacional e os meios humanos e materiais mobilizados para fazer face às chamas.

A avaliação da Comissão debruça-se ainda sobre a atuação das diferentes estruturas de combate e sobre os constrangimentos sentidos ao longo da operação, identificando falhas, dificuldades de coordenação e erros que terão condicionado a eficácia da resposta. O documento procura, assim, não só reconstituir os principais momentos do incêndio, mas também retirar conclusões que possam contribuir para melhorar a prevenção, a preparação e a capacidade de resposta perante futuras ocorrências de dimensão semelhante.

No que diz respeito ao incêndio em Parada, a CTI salienta que a Rede Primária de Faixas de Gestão de Combustível não tinha como atribuição a prevenção e proteção daquela área, não recaindo sobre esta estrutura a responsabilidade pela criação e manutenção de uma rede de faixas de terreno estrategicamente localizadas, com a vegetação e o combustível florestal controlados, destinada a dificultar a propagação dos incêndios.

Segundo a Comissão, o relatório do incêndio evidencia que, apesar das dificuldades de acesso ao local, os meios de combate demoraram cerca de 40 minutos a chegar à zona onde o fogo teve origem. A CTI refere que, numa fase inicial, “a expansão era lenta e praticamente contínua, sem duração longa, indicando reduzido esforço de supressão”, uma observação que consta do documento oficial divulgado pela Comissão.

Num incêndio que teve um dos maiores valores de danos do país nesse ano, 418 registos no total, no decorrer dos nove dias de incêndio que se prolongaram até ao mês de agosto. A CTI confirma, no essencial, a análise da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), segundo a qual o incêndio de Parada atravessou um período prolongado de reduzida propagação, entre as 08h00 de 28 de julho e as 12h00 de 29 de julho, com cerca de 29 horas de duração. Este período foi considerado uma possível janela de oportunidade para reforçar o combate e limitar a progressão do incêndio.

Durante esse intervalo, as condições meteorológicas tornaram-se mais favoráveis ao combate, com maior humidade dos combustíveis, menor intensidade do vento e redução da altura da camada limite atmosférica. A CTI sublinha que a alteração posterior das condições era previsível e que essa possibilidade estava já refletida no planeamento operacional.

O Plano Estratégico de Ação (PEA), elaborado às 04h00 de 28 de julho, identificava igualmente uma janela favorável para intervenção, entre as 04h00 e as 08h00, antes do agravamento previsto das condições meteorológicas. “A análise dos posicionamentos dos terminais SIRESP mostra que, durante grande parte desta janela de oportunidade, houve presença significativa de recursos na envolvente da área crítica”, salienta a comissão, acrescentando que “todavia, a sua distribuição espacial não evidencia uma concentração persistente no setor cuja posterior cedência permitiu a abertura da principal frente de propagação para sudoeste”. 

Para a CTI, o “problema central não esteve na capacidade de prever a alteração do comportamento do fogo, mas na forma como essa informação foi incorporada na tomada de decisão e transformada em ações concretas no terreno”. O setor que viria a tornar-se num dos principais eixos de expansão não foi definido como prioridade nos PEA, apesar da existência de uma janela temporal favorável à intervenção.

A Comissão destaca, ainda que, a antecipação deveria ter começado antes da abertura da janela de oportunidade, permitindo preparar o terreno e concentrar esforços no setor crítico, de modo que “quando as condições se tornem mais favoráveis à intervenção, uma parte substancial do trabalho preparatório esteja concluída, permitindo assim utilizar integralmente essa janela para aumentar a eficácia das ações de supressão”. 

A CTI conclui que, embora existisse uma presença significativa de meios na envolvente do setor analisado, estes permaneceram sobretudo junto da rede viária e dos aglomerados populacionais, não tendo sido projetados de forma sustentada para o interior da área que viria a protagonizar a principal expansão do incêndio. A Comissão refere que esta tendência foi também identificada nas audições realizadas e corroborada pelos dados SIRESP.

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