Isabel Jonet preside à Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome e acredita que a proximidade para com as famílias é essencial. A crescente vulnerabilidade das famílias em Portugal desencadeou um aumento pela procura dos apoios sociais, afirma a presidente. O combate ao desperdício alimentar continua a ser a principal bandeira do Banco Alimentar.
Notícias de Viana (NdV): O Banco Alimentar tornou-se uma referência de solidariedade em Portugal, mobilizando milhares de voluntários. O que explica essa capacidade de mobilização num país que, por vezes, se descreve como pouco participativo?
Isabel Jonet (IJ): O Banco Alimentar existe em Portugal desde 1991 e fez um caminho a partir da sociedade civil, baseando-se no voluntariado e, portanto, este caminho assenta numa rede social que é real. Com milhares de voluntários em 21 pontos do país, que acreditam numa ideia que é comum, que levam comida à mesa de outras pessoas que, muitas vezes, não conhecem e, portanto, penso que o facto de ser oriundo da sociedade civil e de ser uma emanação da sociedade civil faz com que tenhamos, ano após ano, sempre conseguido consolidar esta rede.
(NdV): Há quem argumente que o sucesso de iniciativas que visam resolver causas estruturais da pobreza, como o Banco Alimentar, pode aliviar a pressão sobre o Estado. Vê esse risco como real ou injusto?
(IJ): Penso que isso é um comentário de quem não sabe o que se passa no terreno, na realidade das famílias mais pobres e mais vulneráveis. Se não houver uma proximidade para com as famílias e um conhecimento real e efetivo da situação, não é possível ajudar a cortar ciclos de pobreza e, portanto, estas organizações são complementares à ajuda do Estado.
(NdV): Ao longo dos anos, o perfil de quem recorre ao apoio alimentar tem mudado? Estamos, hoje, perante uma pobreza diferente, talvez mais invisível ou mais próxima das classes médias. Qual é a realidade?
(IJ): O perfil das pessoas mais carenciadas mudou, nos últimos 30 anos. Antes, tínhamos reformados com baixas pensões de reforma e pessoas que não tinham competências para o mercado de trabalho ou desempregados. Hoje, o desemprego, em Portugal, é praticamente inexistente e as pessoas mais velhas, apesar de ainda haver baixíssimas pensões de reforma, têm tido maiores prestações sociais. Atualmente, quem recorre ao Banco Alimentar são famílias que têm um trabalho, mas que não ganham o suficiente para pagar as necessidades do seu agregado familiar. Muito se deve ao peso crescente da habitação e, portanto, o custo da habitação, hoje, consome, em algumas famílias, mais de 60%. Nos dias que correm, temos mais trabalhadores pobres, ou seja, famílias com filhos.
(NdV): E imigrantes?
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