O Bispo de Viana do Castelo, D. João Lavrador, divulgou uma mensagem por ocasião da Romaria de Nossa Senhora d’ Agonia, na qual apela à valorização da humanidade, da fraternidade e da esperança, num tempo marcado pela artificialidade, pela eficiência e pela crescente dificuldade em construir uma sociedade assente no diálogo.
“Como podemos construir uma cidade? E como podemos construir e festejar juntos a Humanidade que somos?”, questiona D. João Lavrador, sublinhando que a Romaria é uma oportunidade para “habitar o mundo de modo mais pleno”.
Na mensagem, o bispo recorda que “nem sempre é fácil construir juntos”, apontando citações proferidas pelo Papa Leão XIV, na encíclica Magnifica Humanitas, na qual uma sociedade corre o risco de seguir a “idolatria do lucro que sacrifica os mais fracos” e “a uniformidade que anula as diferenças”. Perante este cenário, defende a necessidade de transformar “a diversidade num recurso”, através da escuta e do diálogo.
A própria Romaria, considera D. João Lavrador, constitui um sinal de que a Humanidade pode renascer através da responsabilidade coletiva: “a Humanidade renasce não graças à iniciativa de uma única pessoa, mas através da responsabilidade partilhada por todo o povo”, referindo, novamente, o Papa Leão XIV.
Outro dos temas centrais da mensagem é a relação do ser humano com os seus próprios limites. “Tudo o que se apresenta como limite parece ser interpretado como um defeito a corrigir, e não como um espaço onde podemos amadurecer”, escreve o bispo.
“A Humanidade não floresce apesar dos limites, mas através deles”, sustenta, citando o místico cristão Isaac de Nínive: “só quem chegou ao conhecimento da sua própria debilidade, chegou ao fundo da sua humildade”.
D. João Lavrador destaca, também, a vulnerabilidade como elemento essencial da experiência humana. “É a vulnerabilidade que nos torna capazes de intuir uma fraternidade maior do que nós próprios”, afirma, acrescentando que, quando “a eficiência se torna a medida de tudo”, o ser humano corre o risco de ser reduzido a algo “a otimizar”.
Nesse contexto, a Senhora da Agonia surge como uma presença próxima do sofrimento e das fragilidades humanas. “Quem ama não pode evitar passar por um caminho de ‘liberdades e quedas, sonhos e desilusões’”, escreve o bispo, recorrendo também ao poeta Rainer Maria Rilke para alertar para uma Humanidade que se poderia estar a tornar numa “dissipadora de dores”.
A mensagem culmina num apelo direto: “Permaneçamos Humanos”. Para D. João Lavrador, esta fidelidade à condição humana está profundamente ligada à fé cristã: “só fiéis à Humanidade podemos ser verdadeiramente fiéis a Deus”.
O bispo deseja, ainda que a Romaria ajude a construir “uma paz desarmada e desarmante” nas famílias, comunidades e relações. E deixa um desafio para além dos dias da festa: “Que o tempo de paz e de regresso a casa que a Romaria de Nossa Senhora d’ Agonia representa perdure todo o ano”.
Na mensagem, D. João Lavrador pede que os peregrinos levem “amor onde há indiferença; perdão onde há ofensa; esperança onde há desespero; alegria onde há tristeza; luz onde há trevas”.
O prelado agrade a todos os que contribuem para a realização da Romaria, evocando as figuras representadas no interior do Santuário de Nossa Senhora da Agonia, junto da imagem de Nossa Senhora e do seu Filho morto. Vê nelas também “o rosto daqueles de quem depende tudo aquilo que iremos viver, em particular, o dos que abdicam de si e dos seus, nas mais diversas circunstâncias, para construir, organizar e levar a cabo a Romaria”.
A mensagem inclui, ainda, uma oração especial pelas vítimas do mar e pelas suas famílias. “Quero também unir-me em oração por todas as vidas perdidas no mar”, escreve D. João Lavrador, lembrando aqueles que partiram e as famílias que, “no meio de um enorme sofrimento, continuaram a acolher a vida e o futuro”.
“Boa Romaria para todos!”, conclui o bispo, deixando um último desejo: “Que o olhar de Nossa Senhora da Agonia nos renove a bondade!”
Notícias atuais e relevantes que definem a atualidade e a nossa sociedade.
Espaço de opinião para reflexões e debates que exploram análises e pontos de vista variados.