Notícias que se repetem, cenários que se multiplicam

João Azevedo
31 Jul. 2026 5 mins

Todos os verões, o mesmo filme. Ondas de calor sucessivas, termómetros a bater recordes, hospitais em alerta, incêndios a lavrar encostas inteiras. Todos os invernos, o filme muda de cenário mas mantém o enredo: chuva torrencial concentrada em poucas horas, rios que transbordam, estradas cortadas, bairros inteiros debaixo de água. Muda a estação, muda a imagem, mas a notícia é sempre a mesma — e, ano após ano, mais intensa.

Estes cenários estão para lá das meras sensações e do alarmismo coletivo. Os números confirmam o que a experiência já sugeria. Um estudo recente da Universidade de Graz mostrou que o calor extremo aumentou cerca de dez vezes na Europa central e do sul entre 2010 e 2024, face ao período de referência 1961-1990 — um salto que os próprios investigadores descrevem como muito além da variabilidade natural do clima. O relatório Countdown Europe, publicado na revista The Lancet, é igualmente eloquente: os alertas de calor extremo dispararam 318% numa década, e só em 2024 estima-se que tenham morrido cerca de 62 mil pessoas no continente devido ao calor, com Itália, Espanha e Alemanha entre os paísesmais atingidos. Em Portugal, os internamentos hospitalares  diários aumentaram 19% nos dias de onda de calor entre 2000 e 2018.

Do lado da água, o padrão é semelhante. As cheias que atingiram a Europa central em 2024 foram classificadas como as mais graves em duas décadas, com dezenas de mortos e prejuízos na ordem das centenas de milhões de euros. Um relatório do Tribunal de Contas Europeu já alertava que os custos económicos dos fenómenos hidrológicos na União Europeia ascenderam a cerca de 166 mil milhões de euros entre 1980 e 2017 — e que essa fatura anual deverá quase triplicar nas próximas décadas. Só o verão de 2025, entre calor, seca e inundações, custou à economia europeia cerca de 43 mil milhões de euros, um valor que os próprios autores do estudo consideram subestimado.

Estes números para lá da sua dimensão, têm em comum a sua trajetória: tudo aponta para cima, e de forma acelerada. Ainda assim, a resposta política continua presa a um tempo que já não existe, do tempo do curto prazo, do mandato de quatro anos, da obra que se anuncia mas raramente se conclui. O planeamento do território continua a ser feito como se as chuvas de outrora e os verões de há trinta anos fossem ainda a referência válida. Constroi-se em leitos de cheia, urbaniza-se sem rede de drenagem à altura, mantêm-se cidades sem sombra nem água à escala do calor que já as atinge. Como resumiu um especialista espanhol a propósito das cheias de Valência: obras de proteção contra inundações “não são sexy, não dão rentabilidade política até que algo aconteça” — e quando acontece, o custo multiplica-se.

Esta inércia acaba por ser mais do que um simples detalhe técnico, assumindo-se, antes de mais, como uma escolha política reiterada. Investir em bacias de retenção, em sistemas de alerta precoce, em requalificação urbana à prova de calor ou em ordenamento florestal exige décadas para produzir resultados visíveis e nenhum ciclo eleitoral possui um enquadramento para isso. É mais fácil gerir a emergência do que prevenir a catástrofe, porque a emergência gera imagens de solidariedade e ação imediata, enquanto a prevenção é invisível, silenciosa, sem retorno mediático. O resultado é um território cada vez mais desajustado à realidade climática que o atinge.

Mas há um segundo problema, ainda mais estrutural: estes fenómenos já não respeitam fronteiras nem calendários eleitorais nacionais. Uma onda de calor no Sul da Europa afeta a produção agrícola que abastece o Norte; uma cheia na Europa Central paralisa cadeias logísticas que atravessam meia dúzia de países; a seca numa bacia hidrográfica partilhada é, por definição, um problema de dois ou mais Estados.

A Agência Europeia do Ambiente já avisa que, até 2050, cerca de metade da população europeia poderá estar exposta a risco elevado de stress térmico no verão, não apenas no Sul, mas também a Leste, a Oeste e no centro do continente. Perante um risco que se globaliza, não faz sentido que as respostas continuem fragmentadas em políticas regionais ou nacionais isoladas, cada uma com o seu ritmo, os seus critérios e as suas prioridades eleitorais.

É por isso que a exigência do momento não pode ser baseada em apenas mais investimento; exige igualmente coordenação. Um plano de ordenamento do território que ignore o que se passa na bacia hidrográfica do país vizinho é um plano incompleto. Uma estratégia de adaptação ao calor que não dialogue com os países que partilham a mesma onda é uma estratégia parcial. As alterações climáticas colocaram a Europa, e o mundo, perante um problema que exige exatamente aquilo que os sistemas políticos atuais menos sabem fazer: planear em conjunto, a longo prazo, e sem esperar pela próxima tragédia para agir.

Enquanto isso não acontecer, continuaremos a assistir ao mesmo ciclo: notícias que se repetem, cenários que se multiplicam — e cada verão, cada inverno, a fatura mais alta do que no anterior.

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