Estas coisas acontecem só mesmo em Portugal. Um dia acordamos e descobrimos que para salvar o planeta, precisamos de guardar as garrafas de plástico como quem guarda moedas num mealheiro e depois levamo-las a uma máquina, esperamos que ela as reconheça, rezamos para que não diga “embalagem inválida” e no fim recebemos uns cêntimos como prémio pela nossa contribuição para a salvação do mundo.
É o chamado “Programa Volta”! A ideia à primeira vista parece simpática, devolver garrafas, receber um incentivo e promover a reciclagem. Parece simples, moderno e ambientalmente responsável e quase dá vontade de colocar uma música épica enquanto se introduz a garrafa na máquina.
O problema é que quando saímos da publicidade e olhamos para a realidade começam a aparecer algumas dúvidas. Será que estamos realmente a incentivar a reciclagem ou estamos simplesmente a atribuir um valor monetário ao lixo?
Há uma diferença importante entre as duas coisas, porque uma coisa é criar uma verdadeira cultura de reciclagem, em que as pessoas separam os resíduos porque percebem a importância ambiental desse gesto, outra é criar um sistema em que uma garrafa passa a valer alguns cêntimos e, subitamente, aquilo que estava dentro do contentor do lixo passa a ser objeto de uma pequena “corrida ao tesouro”. Esta realidade já se começa a ver em alguns locais em que as pessoas remexem nos contentores, a espalhar sacos de lixo pelo chão e a retirar garrafas para posteriormente as devolver. Não deixa de ser irónico, cria-se um programa para melhorar a limpeza e a reciclagem e acabamos com mais lixo espalhado nas ruas. Tenho dificuldade em chamar a isto uma vitória ambiental.
Não está em causa, naturalmente, a necessidade de reciclar, porque essa necessidade é evidente, nem tão pouco está em causa a responsabilidade individual de cada cidadão. Todos devemos fazer a nossa parte. O que está em causa é saber se o modelo escolhido é realmente o mais eficaz.
Eu tenho sérias dúvidas.
Um sistema de reciclagem não pode limitar-se a dizer às pessoas que “entregue a garrafa e receba uns cêntimos”, tem de atacar o problema na origem, e a origem do problema está precisamente na quantidade absurda de plástico descartável que produzimos e consumimos diariamente.
Durante décadas fomos criando uma sociedade dependente do plástico, água; refrigerantes; leite; detergentes; alimentos; compras, praticamente tudo aparece embrulhado, protegido ou acondicionado em plástico. Depois criámos sistemas cada vez mais sofisticados para tentar reciclar aquilo que nós próprios produzimos em excesso. É um pouco como inundar uma casa e em vez de fechar a torneira, comprar uma esfregona melhor.
A reciclagem é importante, mas não pode ser a desculpa para continuarmos a produzir plástico sem limites, se queremos realmente reduzir o plástico, temos de ter a coragem de discutir alternativas mais estruturais.
Na minha opinião, uma dessas alternativas passa inevitavelmente pelo regresso, sempre que possível, às garrafas de vidro reutilizáveis e à utilização de embalagens de cartão e papel, reduzindo drasticamente o recurso ao plástico descartável. O vidro pode ser reutilizado inúmeras vezes, o cartão e o papel podem ser reciclados e em muitas utilizações, substituir embalagens plásticas.
Mas também não podemos colocar toda a responsabilidade ambiental nos ombros do cidadão que compra uma garrafa de água. Se uma empresa decide colocar determinado produto numa embalagem descartável, também deve assumir uma parte significativa do custo ambiental dessa escolha. O consumidor pode e deve colaborar, mas não pode ser transformado no último elo de uma cadeia de produção baseada no descartável.
Por isso, não me convence a ideia de que o futuro da reciclagem passa essencialmente por máquinas que devolvem dinheiro por garrafas. Podemos até conseguir recolher mais embalagens, mas recolher mais plástico não significa necessariamente consumir menos plástico e essa é, para mim, a questão fundamental. O verdadeiro sucesso de uma política ambiental não deveria ser medido pelo número de garrafas que conseguimos recuperar, mas pela quantidade de plástico descartável que conseguimos deixar de produzir.
É também por isso que pessoalmente, considero o Programa Volta um sistema insuficiente e em alguns aspetos, contraproducente. Pode criar um incentivo financeiro para devolver embalagens, mas não cria, por si só, uma verdadeira mudança de hábitos nem resolve o problema na origem, porque se começarmos a assistir a pessoas a vasculhar contentores e a espalhar lixo pelas ruas para retirar garrafas com valor, teremos conseguido uma coisa curiosa, transformar a reciclagem numa espécie de caça ao tesouro urbano.
Eu prefiro uma política ambiental mais simples, mais exigente e mais corajosa, com menos plástico na origem, mais vidro reutilizável, mais cartão e papel.
Se queremos verdadeiramente eliminar o plástico descartável, não podemos limitar-nos a ensinar as pessoas a devolvê-lo, temos de começar por deixar de o produzir.
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