Exclusivo Entrevista

Pe. Paulo Duarte: “A Igreja somos nós, disponível para o diálogo e para compreender”

O Pe. Paulo Duarte nasceu em Portimão, em 1979, e entrou na Companhia de Jesus em 2003. Licenciado em Filosofia e em Teologia, é mestre em Teologia Fundamental. Foi ordenado sacerdote em 2014 e realizou a Terceira Provação, etapa final da formação jesuíta, no México, entre 2023 e 2024. Atualmente, é adjunto do diretor nacional da Rede Mundial de Oração do Papa em Portugal.

Notícias de Viana
14 Set. 2026 6 mins

Notícias de Viana (NdV): Tem defendido que o corpo é ponto de partida para um encontro com Deus. Numa Igreja que, durante séculos, associou o corpo à tentação e ao controlo, isso é uma rutura real ou apenas uma reinterpretação mais aceitável dos dias de hoje?

Pe. Paulo Duarte (Pe. PD): Mais que uma rutura, parece-me uma integração, quase uma reconciliação. É verdade que, durante muito tempo, o corpo foi visto como o lugar das paixões e das emoções, podendo parecer desajustado em relação ao equilíbrio e ao silêncio associados a Deus. Mas, quando olhamos para a Bíblia, percebemos que muitos encontros com Deus são profundamente físicos e passionais, como a luta de Jacob com o anjo. Além disso, aquilo que hoje conhecemos da fisiologia e da anatomia mostra que a corporalidade tem um papel muito mais importante do que imaginamos na integridade da pessoa e também na dimensão espiritual. Acredito num Deus encarnado, num Deus que assumiu a carne e por isso, o corpo tem uma importância vital na relação com Deus.

NdV: Fala com naturalidade do desejo e da integração pessoal. A Igreja está preparada para levar esta linguagem até às últimas consequências ou continua a haver temas em que esse discurso simplesmente não pode existir?

Pe. PD: Quando falamos da Igreja, falamos de uma realidade muito abrangente. Existem pessoas maduras e Deus desafia-nos precisamente a essa maturidade, que nos permite falar de tudo. Muitas vezes, evitam-se certos temas porque não estão trabalhados interiormente, sendo mais fácil reprimi-los. Mas, em Deus e em Cristo, podemos falar de tudo. A Igreja, através das suas várias estruturas e comissões, pode abordar todos os temas para discernir aquilo que o Espírito inspira, contribuindo para formar uma comunidade mais humana e, por isso mesmo, mais divina.

NdV: A sua experiência na psicoterapia acompanha o caminho de um sacerdote ainda pouco comum no discurso institucional. A Igreja subestima o peso da saúde mental ou tem receio do que esse trabalho interior pode expor?

Pe. PD: Eu não insisto. Simplesmente partilho a minha experiência. Também, não acho que toda a gente tenha de fazer psicoterapia; é um processo de discernimento e cada pessoa perceberá o que faz sentido para si. Atualmente existe muito cansaço, também mental, e, por vezes, é necessário um acompanhamento psicoterapêutico. Em situações como a depressão, por exemplo, pode ser necessária intervenção psiquiátrica e medicação. O importante é escutarmo-nos para perceber de que precisamos para viver de forma plena. Daquilo que conheço, a Igreja tem vindo a abrir-se cada vez mais a esta realidade.

NdV: Durante o seu percurso, de comissário de bordo a jesuíta, surge muitas vezes uma narrativa de integração e não de rutura. Isso contraria a ideia de que a vocação implica deixar para trás uma vida anterior?

Pe. PD: Não contraria. Dependendo da vocação, há decisões que obrigam a escolher um caminho e n

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