A Romaria acabou. E agora?

Filipe Fernandes
28 Ago. 2026 5 mins

Viana tem uma nova ponte sobre o rio Lima. É uma grande obra. Mais de 21 milhões de euros. Uma obra que durante anos foi falada, prometida e esperada e que agora está feita.

E quando uma promessa é cumprida, há que reconhecer. O executivo municipal merece, por isso, uma palavra de parabéns. Não apenas por ter assumido este compromisso, mas também por ter conseguido encontrar o financiamento necessário para o concretizar. Não é pouca coisa.

A ponte vai facilitar a vida a muita gente. Vai poupar tempo a quem todos os dias atravessa o concelho. Vai aproximar pessoas e empresas. Pode ajudar a levar investimento para outras zonas e criar novas oportunidades. E pode ser muito mais do que isso. Pode ajudar o nosso concelho a crescer. Pode ajudar o Alto Minho a crescer.

Mas uma ponte, por si só, não faz uma terra crescer. Abre uma porta. Cabe-nos a nós saber o que fazemos depois de a abrir.

Que Viana queremos?

A Romaria d’Agonia voltou a mostrar a força desta cidade. Foram dias de festa, milhares de pessoas nas ruas, tradição, música, comércio, restaurantes cheios e uma cidade inteira envolvida. Tivemos também a presença do Presidente da República. Foi uma grande Romaria. E temos de estar orgulhosos!

Mas há uma Viana que não aparece nas fotografias da Romaria.

É a Viana de segunda-feira de manhã.

É a pessoa que vai trabalhar.

É o jovem que procura casa.

É o casal que olha para os preços das rendas e percebe que não consegue pagar.

É a família que chega ao supermercado e leva menos coisas para casa com o mesmo dinheiro.

É quem precisa do carro todos os dias e sente o peso do preço dos combustíveis.

É quem tem uma prestação da casa e acompanha com preocupação a evolução das taxas de juro.

É essa Viana que também precisa da nossa atenção. E é aqui que começa a parte mais difícil.

Não podemos olhar para o futuro apenas através das grandes obras ou dos grandes acontecimentos. Uma cidade também se mede pela forma como consegue responder às pequenas e grandes dificuldades de quem cá vive.

Viana tem feito muito. Tem investido, tem atraído empresas, tem apostado no turismo, tem melhorado os seus espaços e tem conseguido concretizar projetos importantes. Mas uma cidade nunca está acabada. Há sempre mais para fazer.

A habitação é, talvez, um dos maiores desafios. Precisamos de continuar a criar condições para que os jovens (e menos jovens) possam ficar, para que as famílias encontrem uma casa a preços que consigam suportar e para que trabalhar em Viana não signifique ter de procurar casa cada vez mais longe.

Precisamos também de pensar na mobilidade, no emprego, no comércio, nas escolas, nos mais velhos e naqueles que começam agora a construir a sua vida.

E há problemas que não são apenas de Viana.

O preço dos alimentos, dos combustíveis, da energia e da habitação pesa hoje no orçamento de muitas famílias em todo o país. A prestação da casa continua a ser uma preocupação para quem tem crédito e a sensação de que o dinheiro chega para cada vez menos é uma realidade que não devemos ignorar.

Aqui, naturalmente, o Governo tem um papel importante.

É preciso continuar a encontrar respostas que ajudem as famílias a enfrentar este período e, sobretudo, criar condições para que possam recuperar alguma margem nas suas vidas.

Não se trata de procurar culpados. Trata-se de reconhecer que há problemas que exigem respostas de todos os níveis de decisão: do Governo às autarquias, das empresas às instituições e, também, da própria comunidade.

Uma cidade não cresce apenas quando constrói uma ponte. Cresce quando consegue aproveitar essa ponte para criar mais emprego, atrair mais investimento, aproximar as pessoas e melhorar a vida de quem cá está. É esse o desafio que temos pela frente.

A nova ponte é uma boa notícia.

A Romaria foi uma boa notícia.

Temos razões para olhar para Viana com confiança.

Mas confiança não significa achar que está tudo feito.

Significa olhar para aquilo que já conseguimos e perguntar o que podemos fazer a seguir.

Queremos uma Viana com mais empresas, mas também com melhores empregos.

Queremos uma cidade visitada por milhares de pessoas, mas onde os nossos jovens possam continuar a viver.

Queremos crescimento, mas queremos que esse crescimento chegue às famílias.

Queremos uma cidade bonita, dinâmica e reconhecida, mas queremos, acima de tudo, uma cidade onde seja bom viver.

Uma cidade faz-se com grandes obras, mas não só.

Faz-se com pessoas que conseguem cá viver.

Faz-se com jovens que conseguem comprar ou arrendar uma casa.

Faz-se com famílias que conseguem pagar as contas.

Faz-se com empresas que conseguem crescer e criar emprego.

Faz-se com uma cidade que não perde os seus filhos porque eles não conseguem pagar para ficar.

É por isso que, depois da festa, precisamos de continuar a falar do que interessa.

A Romaria acabou. A ponte ficou. E Viana continua.

Agora começa o trabalho mais importante: fazer com que tudo aquilo que estamos a construir se transforme numa vida melhor para quem aqui vive.

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