Pensar Globalmente e Agir Localmente

João Azevedo
26 Ago. 2026 7 mins

Este título adotado na Cimeira da Terra do Rio em 1992 e posteriormente com a Agenda Local 21 promovida pela ONU, é o mote para o paroxismo entre um setor estratétigo de relevante sucesso económico e a ersão da identidade e expressão social e cultural dos lugares.

Portugal vive, ano após ano, novos recordes turísticos. Em 2025, o setor gerou 29,4 mil milhões de euros em receitas, mais 6,1% do que em 2024, com 31 milhões de turistas internacionais e 82 milhões de dormidas registadas, números que, podem mesmo pecar por defeito, por não serem contabilizados grande parte do alojamento local de pequena dimensão. Segundo o INE, o turismo contribuiu diretamente com 11,8% para o PIB nacional em 2025 (36,2 mil milhões de euros), com um peso direto de 14% e indireto próximo dos 16%, quando se somam todas as cadeias de valor associadas. O World Travel & Tourism Council vai mais longe e estima, com metodologias que incluem efeitos induzidos, que o setor represente mais de 21% da economia portuguesa.

Estes números explicam por que motivo o turismo é tratado como ativo estratégico nacional. Mas escondem uma realidade menos confortável: um crescimento geograficamente desequilibrado. Lisboa, Porto e o Algarve concentram a esmagadora maioria dos fluxos, das dormidas e das receitas, enquanto o interior, o Alentejo profundo, partes do Centro e do Norte transmontano continuam com uma fração residual da procura, apesar de possuírem património natural, gastronómico, religioso e cultural de qualidade equivalente ou superior.

As últimas duas décadas assistiram a uma verdadeira democratização do acesso à viagem: companhias aéreas low-cost, plataformas de alojamento local, redes sociais que transformam qualquer esquina em destino “instagramável” e agências digitais que vendem experiências a um clique. Este fenómeno é, em si, positivo, pois mais pessoas têm acesso a algo que durante décadas foi privilégio de poucos. O problema não é a “democratização” do turismo, é a ausência de qualquer mecanismo de distribuição que a acompanhe.

O resultado é a sobrelotação (overtourism): cidades e bairros que recebem, em poucos meses, fluxos de visitantes muito superiores à sua capacidade de carga. Lisboa e Porto figuram hoje entre as cidades europeias mais sobrecarregadas pelo turismo, segundo estudos recentes, e a Fodor’s voltou a incluir Lisboa na sua lista de destinos “a evitar” em 2025, precisamente por o turismo estar a colocar pressões insustentáveis sobre residentes e comunidades locais.

As consequências sentem-se no quotidiano de quem vive nestas cidades: subida abrupta das rendas e dos preços de habitação, substituição do comércio de proximidade por lojas de souvenirs e alojamento turístico, ruído, perda de privacidade, pressão sobre transportes e saneamento, e descaracterização de bairros históricos. Urge a necessidade de se equilibrar desenvolvimento económico e qualidade de vida dos residentes, assim como a urgência de se implementarem políticas sustentáveis que regulem o fluxo turístico sem comprometer a autenticidade dos lugares. Investigadores têm documentado processos de gentrificação turística e de financeirização da habitação nos centros históricos, com o arrendamento de curta duração a deslocar progressivamente a função residencial tradicional.

A isto soma-se um problema cultural mais subtil: uma parte dos visitantes, formatada por expectativas criadas em redes sociais e por comunicação turística centrada quase exclusivamente na estética do “postal”, chega aos destinos sem qualquer preparação sobre os códigos de comportamento, os horários, o silêncio dos espaços religiosos, ou o respeito pelos ritmos das comunidades locais, uma espécie dolosa de um desconhecimento estrutural, alimentado por uma indústria que vende a imagem sem vender o contexto. O turista chega a um lugar que já não corresponde à promessa nem para si, que encontra multidões onde esperava autenticidade, nem para quem lá vive, que vê o seu espaço reduzido a um mero cenário.

Por isso, esta máxima simples e poderosa do pensar globalmente e agir localmente, pode ser um ponto de partida de uma ideia de que a conservação de um território depende de decisões tomadas à escala do próprio território, ainda que a lógica e os objetivos sejam globais, é diretamente transponível para o turismo. Um destino turístico per si se protege-se não só com campanhas nacionais genéricas ou com proibições cegas, mas também com uma gestão de proximidade, adaptada a cada território, à sua capacidade de carga, à sua identidade e ao seu próprio ritmo.

Aplicado ao turismo, este princípio significa deixar de tratar “Portugal” como um produto único e passar a gerir cada território, cada bairro, cada aldeia, como uma unidade com limites próprios de sustentabilidade, tal como se gere um habitat protegido: não impedindo o acesso, mas orientando-o, distribuindo-o, qualificando-o.

Daí que o objetivo não deve ser travar o turismo — que continua a ser essencial à economia nacional — mas dissolver os pontos de concentração que geram frustração para todos. Algumas linhas de ação são possíveis: e passíveis de serem aplicadas aos territórios, como a:

  1. Diferenciação e descentralização da promoção: em vez de campanhas genéricas centradas em Lisboa, Porto e Algarve, promover ativamente destinos secundários com qualidade equivalente — aldeias históricas, geoparques, rotas religiosas, património classificado no interior — apoiados por infraestrutura de acolhimento adequada.

  2. Gestão dinâmica de fluxos: sistemas de reserva prévia e limites diários em monumentos e centros históricos mais pressionados, à semelhança do que já existe em Veneza ou em parques naturais, permitindo escoar procura para horários e dias alternativos sem vedar o acesso.

  3. Comunicação turística honesta e educativa: exigir das agências e plataformas digitais informação real sobre afluência esperada, códigos de conduta local e alternativas menos massificadas — substituindo o marketing de imagem pelo marketing de expectativa realista.

  4. Certificação de “destinos-satélite”: criar rotas certificadas que liguem os grandes polos turísticos a territórios vizinhos menos visitados, com incentivos fiscais a operadores que desenhem experiências fora dos centros saturados.

  5. Envolvimento das comunidades locais na gestão do território: conselhos consultivos de residentes com poder real sobre licenciamento de alojamento local e eventos, para que a decisão sobre a capacidade de carga não seja tomada apenas por operadores externos.

  6. Educação do visitante antes da chegada: informação obrigatória e acessível (aplicações, bilhetes de transporte, vistos eletrónicos) sobre regras de comportamento em espaços religiosos, naturais e residenciais.

  7. Fiscalidade turística reinvestida localmente: taxas turísticas com afetação direta e visível a habitação acessível, manutenção de espaço público e serviços dos bairros mais pressionados, criando um retorno tangível para quem suporta o impacto.

Na verdade, o turismo é demasiado importante para a economia portuguesa para ser gerido de forma reativa. Representa a maior fatia de exportações de serviços do país, sustenta mais de um milhão de empregos e mantém-se, mesmo com sinais de abrandamento no seu contributo para o crescimento real do PIB (que caiu de 3,6 pontos percentuais em 2022 para 0,3 em 2025), um dos poucos setores capazes de gerar riqueza distribuída pelo território — desde que se lhe permita, de facto, distribuir-se.

A alternativa à sobrelotação não é menos turismo. É um turismo mais inteligente, mais bem repartido e mais respeitador dos lugares que o tornam possível. Pensar globalmente a estratégia turística nacional, mas agir localmente na gestão de cada destino, pode ser o caminho para que o sucesso dos números não continue a custar a qualidade de vida de quem vive nesses lugares, nem a autenticidade da experiência de quem os visita.

 

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