A coreógrafa Olga Roriz recebeu, recentemente, uma distinção que assinala mais de cinco décadas dedicadas à dança. Natural de Viana do Castelo, fundadora de uma das companhias mais influentes da dança contemporânea portuguesa e autora de mais de 90 criações, rejeita a ideia de que o tempo artístico já passou. “Até uma pessoa morrer, é o seu tempo”, afirma. Aos 70 anos, continua a trabalhar “em continuidade, mas com rutura”, entre o corpo, o conflito, a memória e a necessidade permanente de permanecer em risco.
Notícias de Viana (NdV): Hoje, quando olha para o seu corpo em palco, ou mesmo em estúdio, sente mais continuidade ou rutura com a bailarina que foi?
Olga Roriz (OR): Eu trabalho sempre em continuidade, mas com rutura. Tem as duas coisas. Sou um corpo em continuidade, uma vida, uma mulher em continuidade, mas obviamente que tudo se vai modificando fisicamente, emocionalmente, mentalmente, na forma como vemos o mundo e os outros.
Acho que essa longevidade da carreira vem precisamente daí: de nunca ter cristalizado. Nunca fiquei agarrada a uma fórmula que achasse “boa”. Fui sempre tentando descobrir, procurar, mudar. É quase como se nunca conseguisse ser exatamente aquilo que quero ser. E isso mantém-me num estado de procura e de fragilidade, que é muito importante para um artista. O artista nunca pode estar seguro.
Hoje, quando chego ao palco, há uma continuidade evidente, sou a mesma pessoa, mas há também uma grande rutura.
NdV: Que leitura faz destes mais de 50 anos de carreira?
OR: O meu tempo é agora. Isso para mim é essencial. Há uma coisa que me entristece muito: pessoas que chegam a uma certa idade e começam a dizer “no meu tempo era assim”. Mas o teu tempo é agora. Até morrermos, o nosso tempo é agora.
Nem eu sou a mesma pessoa, nem o mundo é o mesmo. Mudou a técnica, mudou o ritmo de vida, mudou a forma como as pessoas olham para a arte, mudou tudo. E eu tentei, sempre, acompanhar esse movimento.
Tive a sorte de crescer num ambiente muito aberto. Entrei muito nova no Teatro Nacional de São Carlos e fui exposta, desde cedo, à ópera, à música clássica, às artes visuais. Essa mistura abriu-me os horizontes.
NdV: A sua linguagem artística é frequentemente descrita como singular. Isso nasceu de uma procura consciente?
OR: Acho que começou mais como uma recusa intuitiva. Eu entrei muito nova no Ballet Gulbenkian e percebi rapidamente que não queria fazer aquilo que estava a ver.
Havia coisas muito concretas que me afastavam: os papéis rígidos entre homem e mulher, aquela leveza quase decorativa, os sorrisos permanentes dos bailarinos. Irritava-me profundamente.
Eu queria ouvir a respiração do bailarino. Queria ver o cansaço. Queria que as pessoas entrassem em palco vestidas como quem sai de casa. Isso criou logo uma diferença muito grande.
Na minha primeira criação para o Ballet Gulbenkian, homens e mulheres estavam vestidos da mesma maneira e tinham funções equivalentes em palco. Depois, veio “Nina Hagen”, que foi uma clivagem enorme. Era uma peça violenta, sobre maus-tratos, e houve mulheres que vinham falar comigo indignadas, sem perceberem que eu estava, precisamente, a denunciar essa violência.
NdV: Em que momento percebeu que precisava de criar fora dessas estruturas?
OR: Isso foi acontecendo devagar. Estive quase 20 anos na Gulbenkian e era um lugar extraordinário. Mas a grande mudança começou quando iniciei os meus solos, no final dos anos 80.
Aí, comecei a trabalhar através da improvisação. Improvisava horas seguidas, filmava-me constantemente, escolhia material e, depois, tinha de reaprender, no corpo, aquilo que t
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