“Fala a PJ, a sua conta está em risco.” Desligue

Paula Pratinha
3 Ago. 2026 4 mins

O telefone toca. Do outro lado, uma voz calma e séria identifica-se como inspetor da Polícia Judiciária. Diz um nome, dá um número mecanográfico e dá-lhe uma má notícia: a sua conta bancária está a ser usada por criminosos, há pedidos de crédito em seu nome, é preciso agir já. A esta altura, muita gente boa e cuidadosa já está com o coração aos saltos — que é exatamente onde o burlão a quer, e onde começa a burla informática.

Este esquema tem uma perfídia que vale a pena perceber, e sobre a qual importa estar informado, porque é o que o torna eficaz. Ao contrário das burlas antigas, que prometiam prémios, esta não oferece nada. Assusta. Convence a vítima de que já está a ser roubada para, e a pretexto de a proteger, está a roubar a vítima de verdade. O medo faz o que a ganância nunca fez tão bem: desliga o pensamento e liga a obediência.

E há um pormenor que apanha até os desconfiados. Muitas vezes, o falso inspetor já sabe coisas sobre si — o nome completo, o banco onde tem conta, às vezes mais. Esses dados andam por aí, vendidos e revendidos após fugas de informação ou permissões de acesso a dados pessoais em diversos websites, e servem só para uma coisa: dar credibilidade à chamada. Se ele sabe onde tenho conta, raciocina a vítima, então deve ser mesmo da polícia. Não é. É apenas alguém que comprou ou acedeu a uma lista.

O guião a seguir é quase sempre o mesmo. Depois de instalado o pânico, vem o pedido: transfira o seu dinheiro para uma “conta segura”, enquanto a investigação decorre. Pode aparecer uma videochamada, um falso crachá mostrado ao ecrã, até vozes de fundo a imitar uma esquadra. Tudo teatro. O objetivo é um só — que seja a própria vítima a transferir, voluntariamente, as suas poupanças para uma conta controlada pelos criminosos.

Convém dizer com todas as letras o que resolve noventa por cento destes casos: nenhuma autoridade verdadeira funciona assim, seja a PJ ou o banco. A Polícia Judiciária não liga a pedir transferências. Nenhum banco pede códigos, palavras-passe ou que mova o dinheiro para uma “conta segura” por telefone nem numa caixa de multibanco. Uma “conta segura” para onde um estranho lhe pede para transferir dinheiro não existe — é sempre a conta do burlão. Se ouvir esta expressão numa chamada, acabou de identificar a fraude.

O que fazer, então, quando o telefone toca? Desligar. Sem vergonha, sem dó, mesmo que a voz seja autoritária e o assunto pareça sério — sobretudo se parecer sério. Depois, se ficou na dúvida, contactar a instituição pelo número oficial, nunca por um número que lhe tenham dado na chamada. E não devolver a chamada para o número que apareceu no ecrã, porque a origem pode ser mascarada e parecer portuguesa ou até coincidir com a de uma entidade real (o chamado skimming). Pois os burlões conseguem através de softwares avançados efetuar comunicações que parecem legítimas por coincidirem com os dados verdadeiros das entidades, quando na realidade as entidades verdadeiras não tem conhecimento.

E se já aconteceu? Agir depressa. Contactar imediatamente o banco para tentar travar ou reverter a transferência (o que não é garantido), guardar tudo — números, horas, mensagens, prints da videochamada — e apresentar queixa. A vergonha é a melhor aliada do burlão: quanto mais depressa se denuncia, maior a hipótese de recuperar alguma coisa e de impedir que faça mais vítimas. Ser enganado por um profissional da manipulação não é falta de inteligência; é ter caído numa armadilha desenhada ao milímetro para funcionar.

Cada situação tem os seus contornos: o tipo de contacto, os dados que foram fornecidos, o que se chegou a transferir e a rapidez da reação. A melhor solução depende disso. Este texto tem fins informativos e reflete o enquadramento legal à data de julho de 2026; não dispensa a análise do caso concreto.

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