Volta a Portugal no Gerês: Rui Sousa fala em “hipocrisia” e antigo vereador defende avaliação da pressão turística

A passagem da Volta a Portugal pela Mata da Albergaria, no Parque Nacional da Peneda-Gerês, aconteceu esta sexta-feira, 14 de agosto, sob fortes medidas de proteção e depois de vários dias de contestação por parte de organizações ambientalistas. No rescaldo da passagem da caravana, Rui Sousa, ex-ciclista profissional e antigo presidente da Junta de Freguesia de Barroselas, garante que as regras impostas à organização foram cumpridas e considera que a polémica em torno da prova foi marcada por “plena e completa hipocrisia”.

Notícias de Viana
14 Ago. 2026 4 mins
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detail of bike and feet of a cyclist in a bicycle race

A 7.ª etapa da Volta a Portugal atravessou o Parque Nacional da Peneda-Gerês, incluindo a Mata da Albergaria, uma das zonas mais sensíveis do percurso. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) tinha imposto um conjunto de condicionantes, entre estas a interdição do público nas zonas mais sensíveis e limitações à circulação da caravana.

Entre as regras comunicadas às equipas estavam a proibição de circular com os vidros dos automóveis abertos, utilizar a buzina, ultrapassar os 40 km/h, sair dos veículos sem motivo de assistência a um participante, bem como urinar, defecar ou deixar resíduos no local.

Também, foi limitado o número de veículos autorizados a atravessar a zona protegida. Além dos ciclistas, passaram veículos da GNR, duas ambulâncias, duas viaturas médicas, 17 das 34 viaturas das equipas, viaturas e motociclos de comissários, veículos de apoio neutro e três viaturas da organização.

Rui Sousa considera que a organização cumpriu o compromisso assumido com as autoridades e que a caravana atravessou a Mata de Albergaria de forma não concentrada, salientando que “foi completamente cortada, passando de uma forma muito faseada”.

O antigo ciclista considera que as associações ambientalistas não tiveram em conta o tratamento dado ao trânsito automóvel habitual na Mata da Albergaria. Segundo Rui Sousa, passam diariamente pelo local “600 a 700 carros”, mediante o pagamento de uma taxa de 1,50 euros, sem que exista, segundo a informação que recebeu, um “controlo semelhante ao aplicado à caravana da Volta”.

“Eu entendia as políticas deles se naquele local nunca houvesse passagem de carros”, acrescentou o ex-presidente.

A posição de Rui Sousa surge num contexto de forte contestação ambiental à realização da etapa naquele troço. O PAN tinha questionado a autorização concedida pelo ICNF e exigido esclarecimentos sobre a avaliação dos impactos da prova na fauna, flora e habitats, bem como sobre a fiscalização da interdição do público nas zonas mais sensíveis.

Por sua vez, o antigo vereador do Ambiente da Câmara Municipal de Viana do Castelo, Ricardo Carvalhido, considera que “não existe, do meu conhecimento, uma avaliação da capacidade de carga da Mata de Albergaria e, também, estudos sobre os efeitos cumulativos da visitação daquele espaço, por centenas de viaturas por dia, principalmente durante o período estival”.

Ricardo Carvalhido sustenta que apesar disso “a comparação é necessária”, lembrando que “em agosto de 2025 terão atravessado a Mata de Albergaria mais de 20 mil carros, numa média diária superior a 700 veículos” e acrescentando que “no dia da Volta, a circulação automóvel esteve condicionada durante 18 horas, evitando mais de 600 viaturas”.

“Sem público, desaparecem a maior parte dos riscos associados à presença humana”, considera o antigo autarca, apontando“o pisoteio e o estacionamento desordenado, os resíduos e o ruído” como alguns dos principais fatores de pressão.

Para o, também, professor universitário, face às restrições impostas, a passagem da Volta terá representado um impacto reduzido quando comparada com a circulação automóvel habitual. Ainda assim, deixa um alerta: “não podemos banalizar exceções em áreas de elevada sensibilidade”. “É necessário saber quais são as atividades, com que frequência e intensidade que este ecossistema admite”, defende, ainda.

“Em futuras edições da Volta na Mata de Albergaria, deve-se monitorizar as condições ambientais e fazer, principalmente, monitorização etológica (comportamento animal) antes, durante e depois da passagem dos atletas”, referiu Ricardo Carvalhido.

O antigo vereador defende, ainda que, uma eventual passagem futura da Volta pelo Gerês deve servir para “divulgar o valor ecológico do Parque Nacional”, porque “só conhecendo o valor da Natureza é que se torna possível promover a sua conservação e proteção”.

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