O Dia Mundial do Médico de Família assinala-se num momento em que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) continua a enfrentar uma carência significativa de especialistas em medicina geral e familiar, com mais de 1,6 milhões de utentes sem médico atribuído.
Segundo dados do Portal da Transparência do SNS, em março estavam registados 1.624.358 utentes sem médico de família, mais 30.557 do que no mesmo período de 2025. A região de Lisboa e Vale do Tejo concentra a maior fatia do problema, com mais de 1,1 milhões de pessoas nesta situação, seguida do Algarve e do Alentejo.
A situação é assinalada num contexto em que a Ordem dos Médicos alerta para um “paradoxo” no sistema que, apesar do aumento do número de especialistas em medicina geral e familiar na última década, de cerca de 6.000 em 2015 para mais de 9.000 atualmente, o número de utentes sem médico de família também tem aumentado.
A propósito da data, o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, sublinha que o crescimento do número de médicos não tem sido suficiente para compensar a saída de profissionais do Serviço Nacional de Saúde, apontando como principal causa a falta de atratividade da carreira, a par das aposentações e da crescente migração para o setor privado, social ou para o estrangeiro. “Temos que inverter este ciclo”, defende a Ordem, que está a preparar um compromisso estratégico para a Medicina Geral e Familiar, a apresentar ao Governo, centrado no acesso universal a médico de família, na valorização da especialidade e no reforço da governação clínica nos cuidados de saúde primários.
O documento será discutido num fórum promovido pela Ordem dos Médicos e pelo colégio da especialidade, que reúne, pela primeira vez, entidades representativas do setor, incluindo diretores clínicos, sindicatos médicos e associações profissionais.
Entre os principais problemas identificados estão as dificuldades na fixação de profissionais no SNS, a sobrecarga dos cuidados de saúde primários e as fragilidades na articulação entre serviços e sistemas tecnológicos.
Apesar da abertura recente de 711 vagas para especialistas em medicina geral e familiar, a Ordem alerta que o impacto real dependerá da sua ocupação efetiva e critica a distribuição territorial das vagas, considerando que algumas das zonas mais carenciadas ficaram fora do mapa de reforço.
No mesmo contexto, a entidade defende ainda uma revisão dos modelos de organização dos cuidados de saúde primários e alerta para o risco de um SNS cada vez mais centrado no hospital e nas urgências, em detrimento da medicina de proximidade.
c/ Lusa
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