A criação do Núcleo Diocesano de Viana do Castelo da Associação dos Médicos Católicos Portugueses foi assinalada com uma conferência dedicada ao tema “O estigma da vulnerabilidade, a exaustão emocional e o desafio de cuidar de quem cuida”, reunindo médicos, académicos, membros da Igreja e profissionais de saúde, numa reflexão transversal sobre os limites humanos da prática clínica.
Na sessão de abertura, a presidente do novo núcleo, Maria Luís Cambão, sublinhou que a nova estrutura pretende afirmar-se como “um lugar de encontro, em que a ciência e a fé se iluminam mutuamente”, defendendo a necessidade de integrar “conhecimento científico, responsabilidade ética e dimensão espiritual no exercício da medicina”. “Num tempo em que a prática médica é marcada por desafios éticos, técnicos e humanos cada vez mais complexos, torna-se particularmente necessário dispor de espaços de reflexão e discernimento”, afirmou.
O núcleo agora constituído surge sob a alçada da Diocese de Viana do Castelo e da Associação dos Médicos Católicos Portugueses, instituição fundada em 1915 e uma das mais antigas associações profissionais do país.
A direção do novo organismo integra, além de Maria Luís Cambão, Joana Barreiros, Daniela Salgueiro, Diana Rocha, Ana Rita Cambão, Diogo Magalhães e o Pe. Fábio Carvalho.
A presidente da direção nacional da associação, Margarida Neto, destacou a importância do surgimento de novos núcleos locais, considerando que a associação “vive, sobretudo, dos seus núcleos” e do trabalho de proximidade entre profissionais. “É muito importante irmos juntos, os profissionais que são católicos e que pretendem pensar a sua vida profissional à luz do Evangelho”, afirmou, lembrando o legado histórico da associação e o papel dos médicos católicos nos debates públicos sobre ética médica, objeção de consciência, eutanásia e aborto.
Margarida Neto defendeu, ainda, a necessidade de redes de pertença e apoio entre profissionais de saúde. “Precisamos uns dos outros para irmos em conjunto, com amizade, sentido de pertença e identificação”, considerou.
A mesa-redonda central do encontro reuniu o jornalista João Francisco Gomes, o padre jesuíta Bruno Nobre e a psiquiatra Daniela Lascasas.
Ao longo da conversa, foram abordados temas como burnout, saúde mental entre médicos, exigência institucional e o impacte da vulnerabilidade na prática clínica.
Daniela Lascasas alertou para a pressão crescente sobre os profissionais de saúde e para a ausência de mecanismos estruturados de acompanhamento emocional dentro das instituições. “O sistema não está a cuidar dos médicos”, afirmou, acrescentando que muitos profissionais vivem sob uma cultura de hiperexigência e silêncio, em torno da fragilidade psicológica.
A psiquiatra sublinhou, ainda, que a medicina continua marcada por um estigma relativamente ao pedido de ajuda, sobretudo em questões de saúde mental. “O médico é suposto ser seguro, não ter dúvidas, não mostrar fragilidade”, observou, alertando para os riscos de burnout e para as elevadas taxas de suicídio na profissão médica.
Já o Pe. Bruno Nobre centrou a sua intervenção numa reflexão antropológica e espiritual sobre a vulnerabilidade humana, defendendo que “a fragilidade é fecunda” e que faz parte integrante da condição humana. “O grande problema é esquecermo-nos de quem somos”, afirmou o sacerdote e docente da Universidade Católica Portuguesa, considerando que a negação da fragilidade constitui, também, uma forma de negar a mortalidade humana.
Para Pe. Bruno Nobre, tanto a filosofia como a teologia são “uma longa reflexão sobre a condição humana”, sendo essencial criar espaços em que médicos e profissionais possam “processar aquilo que vivem” e reconhecer os limites inerentes ao cuidado dos outros.
No encerramento da sessão, o Bispo diocesano, D. João Lavrador, classificou a criação do núcleo como “uma fermentação de humanidade”, destacando o valor comunitário e social da iniciativa. “Precisamos de uma nova humanidade”, afirmou o prelado, defendendo uma sociedade mais centrada na relação, na vulnerabilidade partilhada e no cuidado mútuo. “Tudo o que nós fazemos por amor, não nos cansa. O amor é criativo, é dinâmico e projeta-nos para o futuro”, acrescentou.
D. João Lavrador agradeceu, ainda, o empenho dos jovens médicos envolvidos na criação do núcleo, sublinhando o significado do projeto num contexto profissional marcado por “tarefas, preocupações e enorme exigência”.
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