Balanço

Isabel Campos
29 Jun. 2026 5 mins
Paisagem

Já passaram dois anos desde que comecei a escrevinhar estas minhas opiniões, desabafos, desgostos, alegrias, alertas, apelos, queixas. Dois anos que me foram agradáveis, por vezes, com muita pena de não poder incluir fotografias.

Pensava que não iria ter assunto para todos os meses, mas lá me foram surgindo, muitas vezes de um quase nada. Tinha-me comprometido, tinha de o fazer. Houve alturas em que teria gostado de escrever de outro modo, ou sobre outro tema, mas… Se fui lida para além da família e alguns amigos, não sei. Alguma coisa terá ficado. Quero acreditar ter despontado alguma curiosidade, alguma maneira diferente de olhar para o que nos rodeia. Espero ter dado boas sugestões – tudo o que sugeri foi lido, visto, escutado.

Passados estes dois anos, é altura de balanço, de verificar se houve mudanças, alterações.

Neste mês, assistimos a três acontecimentos que, só por si, são retrato do que aqui fui apresentando como negativo – o ruído excessivo a horas tardias, a falta de instalações sanitárias, o estacionamento caótico, as bicicletas e trotinetas em todos os espaços, a falta de rigor. Se não, vejamos:

Algures, na outra margem, uma “festa”, um “evento” (adoro esta palavra…) brindou-nos com um pum!pum!pum! noite e dia. Nada a fazer. Estão licenciados! Podem incomodar, legalmente. Quem não conseguir dormir, muda-se, ou espera por segunda-feira. Afinal, foram só dois dias e duas noites!

Seguiu-se a fan zone – mais música bem alta antes do jogo, talvez para, lá longe, agitar os jogadores que, segundo dizem, estavam um pouco “mortos”. Com nome em “estrangeiro”, muita cerveja, com poucas instalações sanitárias, bom som, esteve muito bem… (E aquela esplanada, na Avenida, mais parecida com uma estufa, cheia de bandeirinhas, bem kitsch, está fan/funtástica!).

Quando ainda se recuperava, nova festança bem movimentada – o Mercado dos Descobrimentos. A azáfama da montagem, o constante rodopiar de carros e carrinhas no Jardim, sem preocupação com os peões, o montar das barracas, os carros em cima da relva. Tudo licenciado, certamente.

E começou a Festa! E o Povo acorreu! Como não percorri o certame, só vi a Nobreza no domingo e um falcoeiro. Por entre a multidão, placidamente, ciclistas e trotinetes apressadas, ziguezagueavam, licenciados, entre a miríade de barracas de crepes, pernis, pão com chouriço, caldo verde, bifanas, compotas, cachorros com batata palha.

Diz-se que Portugal, nessa época, deu novos mundos ao Mundo com as descobertas, as invenções, as novidades trazidas de outras paragens. As tendas de roupa e de “jóias” assim o reafirmaram – bem avançadas para o século XVI… Bem em frente à esplanada que frequento, a Tasquinha das Bifanas, com os seus copos de plástico, o seu agradável fumo, lá deixou, no chão, a sua marca – gordura e mais gordura. Será para marcar o lugar para o ano?

Ficou a gordura, o lixo, a relva bem amassada, as paredes e recantos cheios de manchas e odores, pois, e muito com o rigor posto em toda o Mercado, pois nessa altura não havia instalações sanitárias… Tudo licenciado.

Nada tenho contra a realização destas actividades, antes pelo contrário, mas não basta licenciá-las. Tem de haver rigor histórico, tem de haver fiscalização, tem de haver cuidado. Com grande regozijo notei uma massiva presença policial, a pé. Quanto à segurança nas ruas mais estreitas, repletas de materiais inflamáveis, com pouco espaço para um carro de bombeiros, assim como a acessibilidade para uma cadeira de rodas (parece fácil, mas subir a Rua Gago Coutinho, por exemplo, pelo meio da rua, é muito custoso) parecem-me necessitar de mais atenção, futuramente.

As paragens de autocarro continuam a ter publicidade dos dois lados, o que dificulta, em algumas delas, a visualização da chegada do autocarro para quem está sentado. Por favor, quando saírem da cidade, verifiquem se há mais alguma localidade onde estes equipamentos tenham, no lado esquerdo, publicidade e avisem-me.

Já nem é bom falar das caleiras, nos quilómetros de fios nas fachadas dos prédios, nos carros nos passeios.

No final deste balanço, que peca por defeito, tem de se referir o bom serviço prestado pelos TUV. Frequentadora da carreira do Centro Histórico, apenas tenho a notar a forma como o passe é carregado. Não sei se está a ser estudada uma outra maneira que facilite o seu carregamento sem ser apenas no Interface.

Aconselho uma viagem nesta carreira, noutras se passará o mesmo, a meio da tarde. O país profundo! Não me atrevo a descrever essa experiência.

 

SUGESTÕES

Ler – O “Você”, Jorge Mangorrinha, https://tnews.pt/o-voce/

Ouvir –  https://observador.pt/programas/o-escandalo-que-destruiu-a-selecao/ (Saltillo 1986)

 

 

**(Escrito de acordo com a ortografia antiga)

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