Comunidade caxemire protesta em Viana do Castelo: “Quando não conseguimos ligar para casa, não sabemos se a família está viva.”

Eram cerca das 20h quando cerca de 30 pessoas começaram a reunir-se em frente à estação ferroviária de Viana do Castelo. Entre bandeiras da Caxemira, cartazes e palavras de ordem, os manifestantes queriam chamar a atenção para um conflito que decorre a milhares de quilómetros dali, mas que continua a marcar o quotidiano de quem deixou a família na região.

Micaela Barbosa
26 Jun. 2026 5 mins

O grupo procurou sensibilizar quem passava pela praça para a situação na Caxemira administrada pelo Paquistão, conhecida como Azad Jammu e Kashmir (AJK), denunciando alegadas restrições às comunicações, detenções de manifestantes e uma degradação da situação dos direitos humanos.

Embora longe da dimensão das grandes manifestações internacionais, o protesto cumpriu o objetivo de “despertar a curiosidade de quem passava e trazer para o centro de Viana do Castelo um conflito que raramente chega à agenda mediática portuguesa”. “Acredito que chega um momento em que o silêncio deixa de ser aceitável”, resume Danish Rafique, de 45 anos, natural de Rawalakot e residente em Viana do Castelo há cinco anos.

A manifestação foi organizada por membros da comunidade caxemire residente em Portugal, que comunicaram previamente às autoridades tratar-se de uma iniciativa “pacífica de sensibilização”. No pedido enviado às entidades competentes, os organizadores explicaram que pretendiam alertar para preocupações relacionadas com alegadas restrições às comunicações, interrupções da internet e o tratamento de manifestantes na região, garantindo que a iniciativa tinha fins “exclusivamente humanitários e de sensibilização pública”.

O que está em causa?

A Caxemira é um dos territórios mais disputados do mundo desde a partição da Índia britânica, em 1947. Atualmente, a região encontra-se dividida entre a Índia, o Paquistão e a China. Azad Jammu e Kashmir é o território administrado pelo Paquistão, embora seja reivindicado pela Índia, à semelhança do restante antigo principado da Caxemira.

Nos últimos meses, esta região tem sido palco de vários protestos relacionados com o aumento do custo de vida, o preço da eletricidade, o acesso a serviços públicos e outras reivindicações sociais. Organizações de direitos humanos e meios de comunicação internacionais têm acompanhado relatos de confrontos entre manifestantes e forças de segurança, detenções e restrições temporárias às comunicações em algumas zonas. Os organizadores do protesto em Viana defendem que a situação exige maior atenção da comunidade internacional.

É neste contexto que parte da diáspora caxemire espalhada pela Europa decidiu mobilizar-se. Em Portugal, e mais concretamente em Viana do Castelo, onde reside uma comunidade oriunda da região, cerca de três dezenas de pessoas saíram à rua para dar visibilidade àquela que consideram ser uma crise humanitária pouco conhecida.

Para Danish Rafique, a preocupação deixou há muito de ser apenas política. “Como alguém cuja família ainda vive na Caxemira, estes acontecimentos não são notícias distantes”, afirma, sublinhando que “são realidades pessoais”.

Sempre que surgem notícias preocupantes, explica, o primeiro impulso é pegar no telemóvel e ligar para casa. Mas nem sempre isso é possível. “A espera, a incerteza e a impossibilidade de ajudar a milhares de quilómetros de distância podem ser emocionalmente desgastantes”, confidencia, acrescentando: “Embora esteja fisicamente em segurança aqui, os meus pensamentos estão constantemente com aqueles que amo.”

Quando finalmente consegue falar com a família, diz encontrar sempre o mesmo sentimento do outro lado da linha. “Os meus familiares descrevem viver com medo sobre o que poderá acontecer a seguir. Ouvir a preocupação nas suas vozes lembra-me o quanto a realidade deles é diferente da minha”, conta.

Entre duas vidas

Tal como Danish, também Amer Latif deixou Rawalakot para procurar uma vida diferente em Portugal. Vive em Viana do Castelo há cinco anos e diz ter encontrado estabilidade, oportunidades de trabalho e segurança. “Portugal deu-me oportunidades, segurança e um ambiente acolhedor”, afirma. 

Ainda assim, garante que nunca conseguiu desligar-se da terra onde nasceu. “A minha família, as minhas memórias e as minhas raízes continuam lá”, refere, garantindo: “Viver longe não diminuiu a preocupação com o que acontece na região. Pelo contrário. A distância não reduziu a minha preocupação com a Caxemira. Tornou-me mais atento e mais envolvido.”

A mesma ideia é partilhada por Marya Fiaz, de 42 anos, residente em Viana do Castelo há três anos. Sempre que surgem notícias sobre a região, conta, o primeiro pensamento é sempre o mesmo. “Quando surgem notícias preocupantes, o meu primeiro instinto é telefonar para casa”, diz, admitindo: “Durante períodos de interrupção das comunicações, até uma simples chamada se torna impossível.”

Apesar da vida que construiu em Portugal, diz nunca ter deixado de sentir a Caxemira como parte da sua identidade. “Esta é tanto uma questão de direitos humanos como uma questão profundamente pessoal. Trata-se da minha família, da minha comunidade e do lugar onde nasci e cresci”, sublinha.

Mais do que política

Os três participantes rejeitam que o protesto tenha um objetivo partidário ou de confronto político. Preferem enquadrá-lo como um apelo à proteção dos direitos humanos e a uma maior atenção internacional sobre a situação na região.

No documento distribuído à comunicação social, os organizadores apelam às Nações Unidas, a organizações internacionais de direitos humanos, aos meios de comunicação social e aos governos para que acompanhem os acontecimentos na Caxemira administrada pelo Paquistão, defendendo investigações independentes sobre alegados abusos e apelando à contenção de todas as partes.

O futuro que imaginam para a região é semelhante. “Espero uma sociedade onde as pessoas possam comunicar livremente, onde as famílias não vivam com medo de violência ou isolamento e onde os jovens possam concentrar-se na educação, nas oportunidades e na construção do seu futuro”, diz Danish.

Amer acrescenta que espera, “acima de tudo, ver uma Caxemira onde a dignidade humana, a justiça e uma paz duradoura prevaleçam para todos”.

Para Danish, Amer e Marya, a distância entre Viana do Castelo e Rawalakot continua a medir-se pela ansiedade de esperar que uma chamada de casa confirme que está tudo bem.

Em Destaque

Notícias atuais e relevantes que definem a atualidade e a nossa sociedade.

Opinião

Espaço de opinião para reflexões e debates que exploram análises e pontos de vista variados.

Explore outras categorias