Igreja portuguesa debate IA, mas pede para “não perder o anúncio da fé” 

As Jornadas Pastorais do Episcopado, que decorreram em Fátima, reuniram cerca de 130 participantes, entre bispos, responsáveis diocesanos e especialistas, para debater o tema “Anúncio da Fé na nova revolução tecnológica (IA) e na nova cultura”, colocando a inteligência artificial no centro da reflexão da Igreja em Portugal, mas sempre sob uma premissa recorrente: a tecnologia não pode desviar a missão essencial do anúncio da fé.

Micaela Barbosa
18 Jun. 2026 3 mins

Na abertura do encontro, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa  (CEP), D. Virgílio Antunes, deixou um apelo claro aos participantes, sublinhando que, “no meio desta análise” sobre a revolução tecnológica, não se pode “perder o anúncio da fé”. 

Para o responsável, “esta realidade do encontro com Deus” continua a ser o objetivo fundamental da missão da Igreja, mesmo num contexto marcado pela transformação digital acelerada.

O debate integrou também a intervenção de Mons. Renzo Pegoraro, que alertou para os riscos éticos da inteligência artificial, descrevendo-a como uma possível “caixa de Pandora” quando marcada por opacidade e falta de escrutínio. 

A reflexão centrou-se na necessidade de garantir dignidade humana, responsabilidade e controlo sobre sistemas cada vez mais autónomos.

A dimensão comunicacional e pastoral da Igreja no espaço digital foi igualmente destacada por Juan Narbona, que defendeu a necessidade de uma estratégia clara de presença online, incluindo o reforço da atuação dos sacerdotes nas redes sociais e a utilização de ferramentas de IA na evangelização e comunicação.

Na sessão de encerramento, a nota final lida pelo secretário da CEP, Pe. Manuel Barbosa, reforçou a necessidade de um uso ético, transparente e responsável da inteligência artificial, alertando para riscos de desumanização e opacidade tecnológica. 

O documento sublinhou ainda a urgência de formar agentes pastorais e desenvolver estratégias consistentes de comunicação, capazes de dialogar com a cultura contemporânea sem diluir a identidade cristã.

A estas intervenções somaram-se novas contribuições que aprofundaram a dimensão formativa e crítica do debate.

A psicóloga e teóloga Eugénia Abrantes defendeu a necessidade de uma pastoral “mais ajustada às dinâmicas da inteligência artificial”, sublinhando que a espiritualidade é essencial para capacitar os crentes a lidar com as ferramentas digitais. 

A investigadora alertou que, sem formação adequada, os fiéis podem não conseguir interpretar criticamente a informação gerada pela IA nem explorar o seu potencial para o desenvolvimento espiritual.

Para Eugénia Abrantes, a espiritualidade funciona como um instrumento de discernimento ético e humano, capaz de identificar conteúdos “não eticamente válidos” e transformá-los em contributos positivos. “É necessário reforçar competências cognitivas e sociais, apostar na formação teológica e bíblica e trabalhar em rede, evitando estruturas eclesiais fechadas”, defendeu.

Também o jornalista Octávio Carmo trouxe uma leitura crítica sobre os riscos da chamada “verdade probabilística” gerada pela inteligência artificial, alertando para o perigo de confundir aquilo que é mais repetido com aquilo que é verdadeiro. “A verdade, numa perspetiva teológica e ética, não pode reduzir-se à probabilidade algorítmica”, sublinhou.

O jornalista defendeu ainda a criação de um verdadeiro “manual de pastoral digital”, apelando a regras claras, participação de escolas, famílias e especialistas, e a uma utilização transparente e assumida da IA nas comunidades católicas.

Tags Religião

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