As cidades estão a perder a sua identidade para agradar aos turistas?
Em cidades-Postal como Veneza, Barcelona, ou Lisboa, são cada vez mais comuns os episódios de transformação e e substituição de uma população que contribuiu para a casticidade desses espaços, por residentes social e culturalmente identificados nos antípodas da expressividade cultural que tentam comercializar. E é neste cenário que se impõe a incómoda, mas necessária questão: quando é que uma cidade deixa de se pertencer a si própria? Esta não é uma metáfora exagerada, mas um cenário cada vez mais frequente e inevitável, num contexto de globalização e democratização das dinâmicas turísticas. a fotografia exacta do que acontece nos centros históricos europeus.
O turismo de massa não é um fenómeno recente, mas a sua escala mudou de forma qualitativa nas últimas duas décadas. As companhias aéreas de baixo custo, as plataformas de alojamento local e, mais recentemente, as redes sociais que transformam qualquer miradouro em destino obrigatório antes mesmo de se saber pronunciar o seu nome, multiplicaram exponencialmente o número de visitantes em cidades que nunca foram desenhadas para os receber nesta proporção. Veneza, por exemplo, com pouco mais de 50 mil residentes na cidade histórica, recebe anualmente perto de 20 milhões de visitantes. Lisboa, cuja população no concelho ronda os 545 mil habitantes, ultrapassou os 4 milhões de hóspedes em alojamento turístico só em 2023. Os números, por si só, contam desde logo uma história de desequilíbrio vertiginoso.
Porém, o que está em causa não é o turismo em si. Aliás, seria absurdo e economicamente suicida demonizá-lo. O turismo sustenta economias inteiras, cria emprego, financia a reabilitação de património que de outra forma ficaria a degradar-se, e permite que o mundo continue a conhecer-se a si próprio através da mobilidade de pessoas curiosas. O problema não está apenas no turista. O problema é o resultado do modelo.
O mecanismo é conhecido e tem sido estudado por geógrafos desde os anos 1990: quando uma zona histórica se torna atrativa para o turismo, o valor do solo dispara, os senhorios preferem o arrendamento de curta duração (mais lucrativo e sem os vínculos da lei do arrendamento) e os residentes de sempre são empurrados para a periferia. Alfama, Mouraria ou o Bairro Alto, em Lisboa, ilustram bem este processo: bairros que até há pouco mais de uma década eram tecidos vivo de comunidade, com mercearias, tabernas, associações de moradores e uma vida de bairro reconhecível, tornaram-se hoje sucessões de alojamento local, montras de “experiências autênticas” cuidadosamente encenadas para o turista da escapadinha ou da confirmação do vídeo de um qualquer influencer, pseudo-especialista na crítica comercial. Barcelona proibiu, em 2024, a emissão de novas licenças de alojamento turístico e anunciou a extinção de todas as existentes até 2028, numa decisão que o próprio presidente da câmara, Jaume Collboni, justificou com a necessidade de devolver habitação aos barceloneses. Veneza introduziu uma taxa de entrada para visitantes de um dia, medida também ela sintoma de um problema estrutural: a cidade histórica esvaziou-se de residentes permanentes a um ritmo assustador, perdendo mais de dois terços da sua população desde a década de 1950. Amesterdão limitou o número de cruzeiros turísticos e proibiu novas lojas voltadas exclusivamente para turistas em certas zonas do centro. O padrão repete-se, de cidade em cidade, como se estivéssemos perante um mesmo guião aplicado a cenários diferentes.
Há ainda uma dimensão mais subtil, e talvez mais grave a prazo, do que o simples deslocamento de residentes: a transformação da própria cultura local em produto encenado para consumo turístico. O fado, por exemplo, nasceu nos becos populares de Lisboa como expressão de saudade e de vida quotidiana, cantado em tascas por gente que trabalhava o dia inteiro e desabafava a lamentação à noite. Hoje, boa parte da oferta de fado turístico em Lisboa funciona segundo uma lógica invertida: o espectáculo é desenhado primeiro para o visitante, com menus fixos, horários previsíveis e uma teatralidade que tem pouco a ver com a espontaneidade original. Isto não significa que todo o fado turístico seja inautêntico, pois ainda é possível encontrarem-se casas que preservam com seriedade a tradição, mas significa que a fasquia da autenticidade se tornou, ela própria, um argumento de venda, o que é, convenhamos, constitui uma contradição em si própria.
O mesmo se pode dizer de festas populares, mercados e até de línguas: em certas zonas de grande afluência turística, o comércio de bairro adapta-se ao inglês antes do português, os preços sobem para o padrão do visitante estrangeiro em vez do residente local, e os horários e rotinas da cidade reorganizam-se em torno de quem está de passagem, não de quem lá vive todo o ano. É um processo gradual, quase impercetível dia a dia, mas cujo resultado acumulado, ao fim de uma década, é uma cidade que se tornou irreconhecível para quem nela cresceu.
Seria intelectualmente desonesto, no entanto, apresentar apenas um lado desta equação. Há quem argumente, com razão, que a preservação a todo o custo também tem os seus custos e nem sempre verdadeiramente justos. Cidades que dependem do turismo para sobreviver economicamente não podem simplesmente fechar as portas: o turismo financia a reabilitação de edifícios em ruínas, sustenta artesãos que de outra forma perderiam o seu ofício, e gera receita fiscal que permite investir em serviços públicos que beneficiam também os residentes. Restringir excessivamente o turismo, sem alternativas económicas sólidas, pode empobrecer ainda mais comunidades que já vivem em equilíbrio precário, como se viu em algumas regiões do interior de Portugal, onde a falta de turismo é sinónimo de desertificação e não de preservação.
Há também quem sublinhe que as cidades sempre mudaram, sempre absorveram influências externas e se reinventaram e que a nostalgia por uma “autenticidade perdida” pode ser, ela própria, uma construção romantizada de um passado que nunca foi tão idílico como a memória o faz parecer crer. Lisboa do século XIX já recebia viajantes britânicos fascinados pelo exotismo local; o Porto sempre viveu do comércio do vinho com estrangeiros. A pureza identitária absoluta é, pois, em rigor, uma ficção criada pela sua própria narrativa cultural.
Ainda assim, entre reconhecer que as cidades mudam e aceitar passivamente que se tornem cenografias vazias ao serviço de um consumo turístico desenraizado, vai uma distância considerável. Não é possível impedir a mudança, mas e pelo contrário, geri-la com intenção, algo que a maioria das autarquias europeias tardou demasiado tempo a reconhecer e a concretizar.
Algumas cidades começam, finalmente, a experimentar respostas. Lisboa introduziu, em 2023, restrições à emissão de novas licenças de alojamento local em zonas de pressão urbanística, ainda que a eficácia da medida continue a ser discutida. Veneza optou pela via da taxa de acesso. Barcelona escolheu o caminho mais radical, extinguindo por completo o arrendamento turístico de curta duração num prazo definido. Amesterdão apostou na dispersão deliberada do fluxo turístico para fora do centro histórico, promovendo activamente outros bairros e desincentivando cruzeiros de grande escala.
Nenhuma destas soluções é em si perfeita, e todas implicam sacrifícios económicos a curto prazo. Mas todas partem de um princípio que parece, enfim, começar a ganhar consenso: o direito à cidade, o direito de lá viver, não pode estar subordinado, sem limite, ao direito de a visitar. Uma cidade não é um parque temático. É, antes de mais, a casa de quem lá mora, e só depois disso, um destino per si.
Nem todas as cidades enfrentam este dilema à escala de Veneza ou Barcelona e é importante não confundir os dois problemas. Veja-se o exemplo de Viana, que com pouco mais de 36 mil habitantes no núcleo urbano, está longe dos números que sufocam Lisboa ou o Porto. Mas é precisamente por não ter ainda atingido o ponto de saturação que Viana se encontra num momento privilegiado: o de poder escolher o seu caminho antes de ser forçada a corrigi-lo.
O crescimento do turismo no Alto Minho tem sido real e visível, com a consolidação do Caminho de Santiago da Costa Portuguesa, que trouxe um fluxo constante de peregrinos, a gastronomia e o património religioso (o Santuário de Santa Luzia à cabeça) consolidaram-se como atrativos regulares, e a proximidade à Galiza reforça o argumento, tão caro à reflexão sobre identidade ibérica, de uma cidade que vive na fronteira cultural sem nunca ter deixado de ser inteiramente portuguesa. Este crescimento é positivo: gera emprego, sustenta o comércio local e financia a reabilitação do centro histórico. O risco aqui não está em recebê-lo, mas em replicar sem pensar, o mesmo guião que já se revelou nocivo noutras cidades.
O futuro de Viana como cidade média pode seguir dois caminhos distintos. Um é o da imitação acrítica: multiplicar o alojamento local sem regulação, deixar que o comércio de bairro se transforme progressivamente em lojas de recordações, e tratar cada nova unidade de alojamento turístico como u m a vitória económica automática, sem perguntar quem fica de fora desse cálculo. O outro é o da antecipação: definir, desde já, limites claros à conversão de habitação em alojamento turístico nas zonas históricas, apostar na dispersão do turismo pelo território em vez de concentrar tudo na Praça da República e na Ribeira, e investir em manter viva a vida quotidiana da cidade: os mercados, as festas de bairro, a Romaria de Nossa Senhora d’Agonia na sua dimensão popular e não apenas espectacular.
Este segundo caminho tem uma vantagem que as grandes metrópoles já não possuem: em Viana, ainda há tempo. As decisões urbanísticas e regulatórias tomadas hoje, numa cidade desta escala, custam infinitamente menos do que as políticas corretivas que Lisboa ou Barcelona são agora obrigadas a implementar às pressas, depois de o dano ser evidente e praticamente irreversível. Preservar a identidade de uma cidade média exige apenas visão a médio prazo e a coragem de dizer não a alguns investimentos de curto prazo em nome de um equilíbrio que se mede em décadas, não em épocas turísticas.
Talvez o critério mais simples para avaliar se uma política de turismo está certa seja este: pergunte-se a um morador de sempre, à porta de casa, se ainda reconhece o bairro onde cresceu. Se a resposta for não, então algo se perdeu que nenhuma receita fiscal compensa inteiramente.
Nada é absoluto e as cidades ainda vão a tempo de decidir que tipo de resposta querem poder dar, no espaço máximo de uma geração, a essa pergunta. As respostas, essas, é que não poderão tardar, sob pena da irreversibilidade do contexto histórico-cultural, que na sua essência, as definiram.
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