As festas e romarias do Alto Minho são a mais genuína expressão da alma do povo português. Muito para além do colorido dos arcos, da música das bandas filarmónicas, dos bombos, dos ranchos folclóricos ou do brilho do fogo de artifício, representam um património espiritual que atravessou séculos e moldou a identidade das comunidades. Há realidades que não podem ser compreendidas apenas por aquilo que mostram, exigem que se conheça a sua origem, porque é aí que reside o seu verdadeiro significado.
Nestes meses de verão, o Alto Minho respira ao ritmo dos sinos e dos foguetes, e as romarias não são apenas datas inscritas no calendário, são momentos em que uma comunidade suspende o quotidiano para recordar que existe algo maior. As festas nasceram das promessas, da gratidão, da súplica e da fé. O arraial, a música, os foguetes e a mesa farta nunca foram um fim em si mesmos, são a celebração de um encontro entre o povo e o sagrado, que se ergue em torno de uma igreja, de uma ermida ou da imagem de um santo padroeiro, como resposta à necessidade humana de encontrar em Deus conforto, esperança e proteção. Antes de serem acontecimentos festivos, foram atos de fé; antes da procissão, havia a oração; antes da música, havia o silêncio da igreja; e antes do arraial, havia a Eucaristia.
A génese das nossas romarias encontra-se precisamente na profunda religiosidade de um povo que soube unir a devoção à alegria. O culto do sagrado nunca excluiu a festa, pelo contrário, deu-lhe sentido. Os momentos de oração não são um intervalo entre concertos, nem um mero elemento do programa, são o coração das celebrações. São o momento em que o silêncio fala mais alto do que qualquer altifalante e em que cada passo da procissão acompanha uma oração, ainda que dita apenas no íntimo de quem caminha. O sagrado e o profano nunca viveram como inimigos, mas como realidades complementares. O povo reza, cumpre promessas, participa na Eucaristia e depois celebra a alegria de estar vivo, de reencontrar a família, os amigos e a comunidade. A festa é o prolongamento natural da celebração religiosa, não a sua substituição.
Mas, atualmente, existe um paradoxo. As romarias cresceram, atraem milhares de pessoas, promovem o território, dinamizam a economia e preservam tradições que merecem ser valorizadas. Tudo isso é positivo. Mas, ao mesmo tempo, parece que quanto maior é o espetáculo menor se torna a consciência do seu significado. As Eucaristias, os restantes atos religiosos de culto e as procissões, que deveriam ser expressão de humildade, transformam-se muitas vezes em “passerelles”, onde importa mais o lugar ocupado, o traje envergado ou a fotografia captada do que a razão pela qual se assiste e se caminha. Há quem desfile sem nunca peregrinar e quem acompanhe a imagem do andor sem jamais se interrogar sobre aquilo que ela representa.
É curioso observar como numa sociedade que tantas vezes proclama a secularização, continuam a existir momentos em que o sagrado se torna um palco apetecível. Não por conversão, nem por devoção, mas porque certas manifestações religiosas oferecem uma visibilidade que outros acontecimentos proporcionam. A fé, que pertence ao domínio da consciência, corre então o risco de ser utilizada como cenário. Não há qualquer desonra em não acreditar ou em não ter fé. A descrença e a afirmação sincera do ateísmo merecem tanto respeito como a fé genuína. O que verdadeiramente inquieta não é a diferença de convicções, mas a incoerência entre aquilo que se professa e aquilo que se pratica. Os símbolos religiosos existem para apontar para uma realidade que transcende o homem, mas quando passam a ser utilizados para exaltar o próprio homem, deixam de cumprir a sua missão e nesse instante, sem ruído nem escândalo, perde-se o essencial.
Por isso, as nossas festas e romarias devem desafiar-nos a um exame de consciência, porque cada geração recebe este património como herança e tem o dever de o transmitir sem lhe retirar a alma. Uma romaria sem fé pode continuar a ser uma bela festa, mas dificilmente será aquilo que lhe deu origem. Não se pode confundir devoção com exibição, participação com protagonismo ou tradição com conveniência.
Os sinos continuarão a tocar, as imagens nos andores continuarão a percorrer as ruas e o povo continuará a reunir-se. A verdadeira questão é outra, se caminhamos atrás da procissão ou apenas ao lado dela para sermos vistos. A resposta não está nas palavras pronunciadas em público, nem nos lugares da frente, nem nas fotografias do dia seguinte, está como sempre esteve, no silêncio da consciência, porque é aí que nasce a autenticidade da fé e é dela que o culto prestado a Deus recebe o seu verdadeiro sentido.
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