Exclusivo Entrevista

“A Igreja precisa de traduzir o Evangelho para a linguagem do nosso tempo”

O Pe. José Frazão Correia é um sacerdote jesuíta português, teólogo e escritor.  Nasceu em 1970, em Alqueidão da Serra, Porto de Mós, e entrou na Companhia de Jesus em 1995, na qual foi ordenado padre em 2004. É licenciado em Filosofia, doutorado em Teologia Fundamental pela Universidade Gregoriana, em Roma, e foi professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. Entre 2014 e 2020 desempenhou o cargo de provincial dos Jesuítas em Portugal. Atualmente, é diretor da revista Brotéria e pároco da Paróquia da Encarnação, em Lisboa. É também autor de vários livros dedicados à espiritualidade e à reflexão sobre a fé.

Notícias de Viana
7 Ago. 2026 5 mins

NdV: O que é, afinal, ser cristão?

PJF: Ser cristão começa por colocar seriamente essa pergunta.

É necessário ultrapassar uma identidade construída apenas por sinais exteriores ou por afirmações formais e regressar ao essencial: o que traduz hoje a força do Evangelho?

Uma escola católica, por exemplo, não é cristã apenas porque tem um crucifixo à entrada ou porque se apresenta como tal. Precisa encontrar formas concretas de realizar essa identidade.

NdV: Existem bons cristãos e maus cristãos?

PJF: Prefiro dizer que existem cristãos em diferentes etapas do caminho.

Jesus utiliza a parábola do trigo e do joio para mostrar que ambos cresceram juntos até ao momento da colheita. O nosso papel não é julgar imediatamente quem é trigo e quem é joio, porque podemos correr o risco de arrancar o trigo juntamente com o joio.

Mais importante do que classificar as pessoas é perguntar qual é a autenticidade da sua adesão ao Evangelho. Cada cristão deve reconhecer o caminho que já percorreu e aquele que ainda lhe falta percorrer.

NdV: Muitos jovens sentem que a Igreja não é um espaço de hospitalidade. Como se muda essa perceção?

PJF: Essa é uma das grandes questões que a Igreja deve enfrentar.

Quando a fé deixa de ter significado existencial para as pessoas, devemos interrogar-nos. É demasiado fácil dizer que os jovens não querem saber ou que lhes falta vontade.

Talvez a verdadeira pergunta seja outra: estamos nós a conseguir traduzir o Evangelho numa linguagem significativa para as pessoas de hoje?

O próprio Papa Francisco alerta para o perigo de repetirmos continuamente as mesmas fórmulas, julgando que isso basta para comunicar.

Talvez seja necessário voltar atrás e perguntar: qual é o núcleo essencial do Evangelho que vale realmente a pena transmitir?

NdV: As escolas católicas devem aproximar os jovens da Igreja?

PJF: Acho que a missão principal de uma escola católica é formar bons cidadãos.

Não apenas alunos com boas notas, mas pessoas capazes de pensar criticamente, de cultivar a cultura, a leitura, as artes, a ciência, a responsabilidade e a liberdade.

Se isso conduzir também à fé, tanto melhor. Mas não considero que esse deva ser o primeiro objetivo.

Uma escola que forme pessoas humanamente consistentes, livres e responsáveis já estará a cumprir o essencial da sua missão.

Notícias de Viana (NdV): Fala muitas vezes na “hierarquia das verdades”. O que significa este conceito?

Pe. José Frazão (PJF): A expressão vem da Evangelii Gaudium, um dos textos programáticos do Papa Francisco. Ele afirma que uma Igreja consciente do seu tempo — e o nosso é um tempo de mudanças muito profundas — precisa de redescobrir aquilo que é mais essencial no Evangelho.

Os Evangelhos contêm muitas verdades, muitos matizes e muitos acentos, mas nem todos têm a mesma relevância. Todos pertencem ao patrimó

Tags Entrevista

Para continuar a ler este artigo

Torne-se assinante e tenha o poder da informação do seu lado.

  • Edição Digital 2 meses

    5,00 Subscrever
  • Edição Digital Anual

    25,00 Subscrever
  • Edição Digital + Edição Papel Anual

    35,00 Subscrever
  • Cancele quando quiser Saber Mais

    Em Destaque

    Notícias atuais e relevantes que definem a atualidade e a nossa sociedade.

    Opinião

    Espaço de opinião para reflexões e debates que exploram análises e pontos de vista variados.

    Explore outras categorias