Há uma tradição que une avós, pais, filhos e netos. Não passa de geração em geração por herança, mas por hábito: acreditar que os mais novos já não têm emenda.
“Vivem agarrados ao telemóvel”; “Nem bom dia sabem dizer”; “No meu tempo isto não acontecia”. Se estas frases lhe são familiares, parabéns. Está oficialmente no clube dos adultos.
O curioso é que este discurso não nasceu com a Internet nem com as redes sociais. Já na Grécia Antiga se olhava para a juventude com desconfiança. Aristóteles descrevia os jovens como impulsivos e pouco experientes. Horácio, poeta romano, escrevia, com ironia, que cada geração parecia pior do que a anterior. E a famosa frase atribuída ao filósofo Sócrates, sobre os jovens que não respeitam ninguém, continua a circular pelo mundo, apesar de provavelmente nunca ter sido dita por ele.
Talvez porque, verdadeira ou não, descreve um sentimento intemporal.
Se recuarmos algumas décadas, percebemos algo quase cómico. Os nossos avós foram criticados pelos seus pais. Os nossos pais ouviram exatamente o mesmo. Nós também fomos a geração “que já não queria trabalhar”. E agora somos nós que olhamos para os mais novos e pensamos: “Isto está tudo perdido.” É o ciclo natural da vida.
Se todas as gerações foram consideradas as piores do seu tempo, talvez nenhuma tenha sido realmente pior. Foram apenas… diferentes.
É verdade que muitos jovens vivem de olhos no ecrã. Também é verdade que alguns conseguem responder a mensagens em várias aplicações, ver três vídeos e dizer aos pais que estão “sem fazer nada”. É um talento que merece estudo científico.
Mas vale a pena lembrar que todas as épocas tiveram o seu “grande culpado”. Os nossos avós desconfiavam da televisão. Os nossos pais culpavam os videojogos. Hoje apontamos o dedo ao telemóvel. Amanhã haverá outra tecnologia a ocupar esse lugar.
Também ouvimos muitas vezes que os jovens já não cumprimentam, não conversam e não convivem. Em parte, é verdade.
Mas também vivem num mundo diferente do nosso. Estudam online, trabalham à distância, fazem compras sem falar com ninguém e mantêm amizades que atravessam continentes. Os hábitos mudaram porque a sociedade mudou.
Isso não significa que devamos desistir de ensinar respeito, educação ou empatia.
Talvez o maior erro seja confundir mudança com decadência. Os valores podem permanecer. Os costumes evoluem.
No fundo, todas as gerações olham para o passado com alguma nostalgia e para o futuro com alguma desconfiança. É humano. O passado tem o estranho hábito de apagar os defeitos e deixar apenas as boas recordações.
Por isso, daqui a trinta anos, muitos dos jovens de hoje estarão a dizer aos filhos que “no meu tempo é que era”. E provavelmente estarão a queixar-se de uma tecnologia que hoje ainda nem existe.
A História tem um enorme sentido de humor. Há milhares de anos que conta exatamente a mesma piada. A única coisa que nunca muda entre gerações é a certeza de que a geração seguinte está perdida.
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