Os outros, somos melhores do que eles?

Isabel Campos
20 Jul. 2026 4 mins
Paisagem

No passado dia 26 de Junho, com o título Comunidade caxemire protesta em Viana do Castelo, publicava este jornal uma reportagem sobre a manifestação que os imigrantes da Caxemira organizaram nesta cidade.

Manifestação pacífica de algumas dezenas de pessoas que pretendiam chamar a atenção para a situação política do seu longínquo país e para a dificuldade que têm com as comunicações com os seus familiares.

Pois esta inofensiva notícia levou a que “cidadãos” atentos, patriotas, preocupados com o bem- estar do seu próximo inundassem a caixa de comentários do jornal, não para apoiar os manifestantes, cidadãos algumas vezes mais idóneos do que eles, com evidentes mensagens de ódio, de intolerância, de racismo.

Como diz um dos participantes, Danish Rafique, radicado em Viana há cinco anos: “Acredito que chega um momento em que o silêncio deixa de ser aceitável “. Assim penso. Não nos podemos calar quando comentários deste “refinado” teor são escritos por gente com vidas muito tristes, muito pequeninas, que se vingam nos outros, neste caso nos caxemirenses, com as suas frustrações, as suas vidas desinteressantes. Deviam experimentar um país onde as comunicações são dificultadas, onde não é fácil entrar em contacto com a família. Isso, sim, seria um desastre, não poder livre e facilmente “comunicar” no Face. Aí, sim, viriam para a rua protestar e esperariam a compreensão dos outros. Não poderiam aproveitar o tempo que gastam a odiar o próximo, por exemplo, para ler, para aprender a escrever sem erros ortográficos, a melhorar a sua vida?

Não tenho redes sociais. Passo bem sem elas. Acredito que têm vantagens, mas, pelo que ouço e às vezes leio, não são grandes.

Parece que o Facebook é mais do “povo”, enquanto o Instagram – o Insta – é mais elitista, mais citadino, mais refinado, mas também cheio de alfinetadas. Destila-se mais rancor no Face, chega-se a mais “seres” patriotas, preocupados, atentos.

Há dias, num dos podcasts que já aqui sugeri, ouvi um comentário interessantíssimo – as redes sociais tornaram-se a casa de banho pública de há anos. Já repararam que mesmo nos estabelecimentos mais fracos não há tantos comentários nas portas das instalações sanitárias? Passaram para as redes sociais…

Basta olhar, também, para o que se passou no Campeonato Mundial de Futebol – todos passaram dos maiores aos mais infames. Todos são patriotas – colocam as bandeiras na janela, nos carros, “vestiram-se” com a bandeira, rejubilaram e exultaram com a vitória e destilaram veneno, quando derrotados, contra jogadores, seleccionador, comentadores e … caxemirenses.

Se tivéssemos ganhado, seríamos os maiores, muito superiores a esses imigrantes que nos incomodam, apesar de muitos deles serem muito mais cultos, educados, cidadãos do mundo do que aqueles que os atacam. Felizmente que na fraquinha vida destes, pobrezinha de ideias, mesquinha há sempre um caxemirense ou um futebol para poderem bater nas redes sociais.

No penúltimo número da revista Sábado, na sua crónica A lagartixa e o jacaré, José Pacheco Pereira destacava esta frase: Portugal não tem uma cultura patriótica, não conhece a sua história, não tem valores sobre a sua identidade, despreza a língua portuguesa e torna-se palco da manipulação sistemática das redes sociais. Com uma excepção perversa: o futebol.

 

NOTA – Na escultura em frente à estação da CP, na saia da Maria, começaram a aparecer nomes portugueses, não caxemirenses ou quejandos, pintados. Não será muito difícil encontrar uma das “artistas” que deixou o nome e a freguesia onde vive, pelo será possível alguma autoridade admoestá-la, antes que outros sigam este mau exemplo.

SUGESTÕES
Ler – Manifesto pela leitura, Irene Vallejo
Ouvir – Exsultate, jubilate (K165), Mozart

 

(Escrito de acordo com a ortografia antiga)**

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