Ao longo deste caminho, uma das maiores lições que retiro é perceber que nem todos os que ocupam lugares de destaque os merecem. Muitos lá chegam não pelo mérito, nem pelo trabalho, nem pela capacidade, mas pelo oportunismo. E isso não é novo. É velho. É típico da lógica do capital: nada produzir, nada construir, viver do esforço dos outros e, no fim, querer colher aquilo que nunca semearam.
Andam por perto, muitas vezes calados, na sombra, à espera. Como hienas. Não para ajudar, não para construir, mas para atacar no momento certo e tentar tomar para si aquilo que acham que podem usar ou controlar, mesmo sabendo que não lhes pertence por direito. São perigosos, até para os seus. Porque quem vive do oportunismo não conhece lealdade, conhece conveniência.
Criticam nos outros aquilo que fazem todos os dias. Apontam o dedo ao benefício alheio, enquanto tratam de garantir os seus próprios interesses e os dos seus. Sempre com a mesma lógica: condenar em público aquilo de que se servem em privado. O velho retrato da hipocrisia: olha para o que digo, não para o que faço. Mas há uma doença ainda mais perigosa: a enfermidade do poder pelo poder. E essa é talvez a mais destrutiva de todas, sobretudo quando nem sequer se tem poder real. Porque aí já não é apenas ambição, é narcisismo. É a necessidade constante de validação, de controlo e de protagonismo. E, como escreveu Luís de Camões, “um fraco rei faz fraca a forte gente”.
A fraqueza de quem lidera, ou de quem ambiciona liderar sem ter carácter para isso, arrasta consigo estruturas, contamina relações e enfraquece comunidades inteiras. Quem vive obcecado pelo poder não quer servir. Quer dominar. Não quer construir. Quer controlar. E esse é talvez o maior perigo, quando a vaidade pessoal se sobrepõe ao bem comum. Vivemos também num tempo de grande mesquinhez humana. Há quem se esconda atrás da ideia fácil de que são todos iguais. Mas isso é uma forma preguiçosa de olhar para o mundo. Porque o ser igual não está no cargo, nem na profissão, nem na ideologia. Está, ou não está, no carácter. E o carácter revela-se nos pequenos actos, nos compromissos assumidos, na palavra dada e cumprida. Aliás, hoje em dia vemos isso em toda a sociedade.
Quantas vezes aqueles que mais prometem e menos cumprem não são até os mestres dos ofícios mais básicos e essenciais para todos nós? O picheleiro, o pintor, o calceteiro, o jardineiro, mecânico e o electricista. Profissões fundamentais, sem dúvida, mas onde tantas vezes a palavra dada se perde na facilidade da desculpa. E isto não é uma crítica à dignidade do trabalho. Pelo contrário. É precisamente uma defesa dela. Porque seja na política, seja num ofício manual, a seriedade mede-se da mesma forma: pela responsabilidade, pela honestidade e pela capacidade de cumprir.
Foi também este percurso que me mostrou o outro lado. Fez-me perceber que, apesar de tudo, ainda há pessoas que valem a pena. Pessoas que surpreendem pela positiva, pela entrega, pela forma genuína como encaram o serviço aos outros. E isso é talvez uma das melhores confirmações de que ainda faz sentido continuar. Porque ao longo do tempo fui aprendendo que o carácter vem sempre primeiro. Antes da ideologia, antes das palavras, antes das conveniências. E é talvez por isso que continuo a encontrar motivação no trabalho em prol da comunidade. Não pelo reconhecimento, nem pelo protagonismo, mas pela simples convicção de que servir os outros é um dever que nos engrandece a todos. Mesmo quando os recursos são poucos, mesmo quando o dinheiro não chega para tudo, há sempre forma de fazer acontecer alguma coisa. Com pouco, vai-se fazendo. E muitas vezes é nesse pouco que se percebe quem está verdadeiramente comprometido e quem apenas anda à procura de ocasião.
No fim, o que fica não são os cargos, nem as manobras de bastidores, nem os jogos de vaidade. O que fica é aquilo que fomos capazes de construir, de ajudar e de deixar aos outros. E, acima de tudo, aquilo que nunca se consegue fingir, comprar ou roubar: o carácter.
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