Viana do Castelo: Entre concertos e debates, Festival da Juventude expôs o lado menos visível das relações entre jovens 

O Centro Cultural de Viana do Castelo recebeu a primeira edição do Festival da Juventude, uma iniciativa da autarquia pensada para envolver o público jovem, através de uma programação que cruzou cultura, música, desporto e momentos de debate.

Micaela Barbosa
6 Mai. 2026 5 mins

Com entrada livre na maioria das atividades, exceto um espetáculo de stand-up comedy com bilhete de 5 euros, o evento reuniu “centenas de participantes” ao longo dos dois dias. Dança, poesia, música, gaming, jogos de tabuleiro e atuações de DJs compuseram um programa diversificado, que ocupou tanto o interior como os espaços exteriores do Centro Cultural.

A vereadora da Juventude, Carlota Borges, sublinhou a construção do festival em articulação com jovens e estruturas locais. “Foi concebido em colaboração com os membros do Conselho Municipal da Juventude e também com muitos jovens de Viana do Castelo. Foi um evento muito feito à imagem e semelhança deles”, afirmou, enaltecendo a aposta na diversidade de propostas.

O primeiro dia contou com atuações de escolas de dança, momentos musicais, poesia pelo grupo Bicho Papelão e performances de tunas académicas, além de ilusionismo e jogos de tabuleiro dinamizados pela ArtMatriz.

À noite, o recinto exterior recebeu uma noite académica em parceria com a Federação Académica, com bares e food trucks, num registo mais informal. Já no dia seguinte, o programa incluiu um “Game Day” com videojogos, realidade virtual e simuladores, terminando com stand-up comedy e uma noite de DJs.

Entre as várias iniciativas, destacou-se uma conferência dinamizada pela psicóloga e sexóloga Tânia Graça, que encheu uma das salas do Centro Cultural com “mais de 500 pessoas”, com jovens e adultos.

A sessão centrou-se nas dinâmicas das relações íntimas, com particular atenção à violência no namoro e aos comportamentos de controlo, um dos tipos de abuso mais frequentemente identificados entre jovens. “O controlo foi uma coisa que sempre existiu em relações abusivas ou tóxicas. O que mudou é que, hoje, temos o telemóvel, que permite um controlo em tempo real”, afirmou Tânia Graça, sublinhando a forma como a tecnologia ampliou comportamentos já existentes, como a partilha de passwords ou a localização permanente.

Segundo dados referidos na sessão, “cerca de 76% dos casos reportados de violência no namoro envolvem comportamentos de controlo”. “Uma coisa é preocupação, outra é controlo. Muitas vezes, os jovens não conseguem separar as duas”, alertou.

A psicóloga abordou, ainda, o impacte das redes sociais e da cultura digital na normalização destes comportamentos, incluindo exemplos de campanhas de sensibilização como a da  Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, que colocaram o tema da privacidade no centro do debate público.

A sessão incluiu, também, uma contextualização mais ampla do fenómeno da violência nas relações, com referência a dados que apontam para uma forte desigualdade de género nos casos reportados, em que “mais de 70% das vítimas são mulheres e mais de 70% dos agressores são homens”.

Em 2025, foi ainda referido que terão ocorrido “32 mortes de mulheres em contexto de violência doméstica, maioritariamente às mãos de parceiros ou ex-parceiros”.

Sem generalizações, Tânia Graça salientou a existência de padrões sociais associados à construção da masculinidade. “O que estamos a ensinar aos rapazes sobre o que é ser homem?”, questionou, apontando ideias persistentes de força, controlo emocional e domínio nas relações.

A psicóloga referiu, ainda, a influência crescente de discursos misóginos e comunidades online associadas à chamada “manosfera”, alertando para o impacte destas narrativas na forma como os jovens percecionam as relações.

Apesar do enfoque nos comportamentos de risco, a sessão procurou, também, enquadrar o que constitui uma relação saudável, sublinhando a importância da comunicação, do respeito e da autonomia individual. “Um mais um, não é um. Nem é dois. É três: eu, tu e a nossa relação”, resumiu Tânia Graça, defendendo que a individualidade de cada pessoa deve ser preservada dentro de uma relação.

A privacidade foi outro dos pontos destacados. “Não partilhar passwords, não é ter algo a esconder. É existir, enquanto pessoa”, acrescentou, identificando sinais associados a relações abusivas, como desvalorização constante, isolamento social, chantagem emocional ou manipulação através do silêncio e da culpa.

A intervenção alargou-se a temas como educação sexual e saúde sexual, com críticas à falta de formação estruturada nas escolas e em contexto familiar. “Ensinam-nos matemática e português, mas muito pouco sobre relações saudáveis”, afirmou a psicóloga, defendendo uma abordagem mais consistente e informada.

Foram também referidos dados sobre o aumento de infeções sexualmente transmissíveis entre jovens e a redução do uso de preservativo em relações casuais, sublinhando a importância da prevenção.

No campo do consentimento, Tânia Graça referiu que este não deve ser entendido apenas como “ausência de recusa”, mas como “presença ativa de vontade”. “Não é sobre ceder, é sobre querer”, disse, acrescentando que o consentimento pode ser retirado a qualquer momento.

O Festival da Juventude afirmou-se como uma iniciativa de experimentação e proximidade aos jovens, cruzando momentos de lazer com espaços de reflexão sobre temas que atravessam o quotidiano desta geração.

Carlota Borges admitiu que esta primeira edição servirá de base para o futuro. “É o primeiro. Vamos aprender muito para que, para o ano, possa ser um evento ainda maior”, garantiu.

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