Nós, pobres portugueses

Marlene Ferraz
15 Jun. 2026 6 mins
Nós, bichos sociais

Quando vemos medidas tão orientadas para combater o abuso ou a fraude (como na licença de amamentação, no pacote laboral e, agora, na prestação social única), e sabendo que estes casos representam uma fração mínima, acabo por ficar a pensar na mensagem implícita que nos entra corpo adentro: “os portugueses não gostam de trabalhar”. Também deve haver finlandeses e ingleses que não gostam, mas, em Portugal, parece que a acusação se estende à maioria. Fala-se muito da baixa produtividade, da dependência de subsídios, da falta de candidatos para trabalhos mais indiferenciados, mas importa um emolduramento mais amplo.

Quem se senta diante de mim para consulta costuma trazer o peso da individualidade, mas importa lembrar (sempre) que nós somos, também, e muito, criação do coletivo. Ser português não é apenas um acaso geográfico, até porque não basta olharmos para dentro para nos entendermos mais profundamente – convém ter presente o chão que tantos outros já calcaram antes de nós, o chão que temos calcado (entretanto) e como o mundo se movimenta à nossa volta.

Na cabeça, tem-se revolvido a advertência do economista Carlos Farinha Rodrigues – ainda que o risco de pobreza em Portugal tenha descido 1,2 pontos percentuais, continua a representar 15,4% da população e, sem prestações sociais (como as pensões por incapacidade, desemprego e velhice), teríamos um aumento para 40,4%. Devo confessar o espanto. É uma estimativa dolorosa. Temos aproximadamente 300 mil crianças consideradas pobres e 8,6% da população empregada com rendimentos insuficientes para escapar à pobreza (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2025). É deste ano a análise que nos mostra que Portugal tem valores inferiores à média internacional em todos os indicadores de saúde física e mental, funcionamento social, bem-estar e saúde geral (PaRIS, OCDE, 2026). Há referências sobre um aumento da população em situação de sem-abrigo e um agravamento das dificuldades enfrentadas pelas famílias mais vulneráveis, como as monoparentais ou com três ou mais crianças. Portugal mantém-se entre os países com maior desigualdade da UE, tanto em rendimentos como oportunidades, e, ainda que se celebre um mínimo crescimento económico (que não se manifesta no dia-a-dia), o muro entre ricos e pobres continua alto.

É, ainda, um dos países com maior risco de depressão, também de burnout e stresse financeiro, até porque temos um dos salários mais baixos (e uma das jornadas mais carregadas em horas), para não falar dos casos de assédio laboral (também em ascensão). Vamos fazer contas: temos um poder de compra dos mais reduzidos da zona euro, o que se traduz, inevitavelmente, numa diminuída capacidade de poupar, consumir e apostar no autocuidado (muitos portugueses dizem ter cortado em atividades de bem-estar, como ginásio e terapia). Sabemos ainda que temos das taxas mais elevadas de prevalência de doença mental (e que um dos maiores determinantes é, precisamente, o stresse financeiro), com metade dos portugueses a relatar sintomas de ansiedade sobre a gestão de orçamento, até pelo custo de vida apontado como insustentável (a notar-se no preço atual do cabaz alimentar e da habitação). Mais: somos um dos países da Europa em que a origem familiar mais destina o sucesso futuro, com uma correlação provada entre o capital financeiro e cultural da família e o desempenho escolar da criança (sublinhando a educação como o maior agente da mobilidade social). Segundo relatórios da OCDE, em Portugal, pode levar até cinco gerações para que o descendente de uma família considerada pobre consiga chegar ao rendimento médio do país, o que faz transparecer a lentidão do nosso elevador social, abaixo da média europeia. E tem sido criticado pela mesma OCDE pelo valor baixo das prestações sociais, sendo o país da EU em que os apoios têm menos impacto na redução da pobreza (Expresso).

Incomoda, portanto, ouvir “os portugueses não gostam de trabalhar”, quando temos portugueses a trabalhar bem por todo o mundo. Temos de nos obrigar a aplicar filtros mais eficientes quando pensamos em repetir declarações destas. A felicidade, a exemplo, também não é um código binário 0 – 1, sou feliz, não sou feliz. Também ser português não pode ser explicado com afirmações “gostam, não gostam”. Temos todas as histórias, do mundo, do país e de cada um de nós. Uma mão de circunstâncias mais globais e mais particulares. Se abrirmos os olhos, podemos ver que a ideia de meritocracia complica a empatia por aqueles que têm menos: os que têm muito, investiram esforço para ter; os que têm pouco, não se esforçaram por merecer. Sobrinho Simões, celebrado patologista e senhor homem, tem avisado: somos maus a criar comunidade, que é o mesmo que dizer a estender as mãos e a ler os outros com mais afeição e entreajuda, sem tropeçar em discursos demasiado simplistas e acusadores para explicar os males da pátria. Se pudéssemos retirar todas estas camadas de bens materiais e vantagens, poderíamos ver, sem a menor dúvida, que, despidos, somos os mesmos bichos suficientemente afáveis, mais moldados pela cultura do que pela genética, e que o coração é o lugar a que todos pertencemos. Lembremos: nenhum de nós começa do mesmo ponto de partida. Mas acabamos todos no mesmo ponto de chegada. Só a morte continua a ser tão democrática.

Aplausos para José Teixeira, cabeça- coração do grupo DST que, sobre o pacote laboral, teve a coragem de dizer “isto não está para se mudar a favor dos trabalhadores (…) deixem estar os trabalhadores em paz” (Liga dos Inovadores, podcast do Expresso).

Floresçamos. Juntos.

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