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Entre andaimes e tubos, a Sé de Viana recupera a memória da arte e da música sacra

Pouco passa das 7h30 quando as portas do coração da Diocese de Viana do Castelo se abrem ao seu povo. A Sé Catedral começa mais um dia de portas abertas, sem que as obras de recuperação que decorrem no seu interior impeçam vianenses, turistas e peregrinos de contemplar um monumento que atravessa séculos de história. Tudo se manteve igual no decorrer deste ano de trabalhos. Erguida a partir do século XV, a Catedral mantém-se como um espaço de culto, de encontro e de memória, mesmo enquanto se prepara para uma nova etapa de conservação.

Catarina Faria
4 Nov. 2026 6 mins

Há 25 anos que a Sé Catedral de Viana do Castelo vai ganhando uma nova cara, “pouco a pouco”, através de sucessivas intervenções de conservação e recuperação. O objetivo, porém, não é apagar as marcas do tempo nem alterar a essência deste espaço de culto, mas preservar os seus pormenores e elementos históricos. “Tirar-lhe o pó, que já deve andar por aqui há 100 anos”, brinca o Pe. Armando Dias, capelão da igreja de Santa Maria Maior, outra denominação da Sé Catedral.

A passagem do tempo não apagou a beleza da construção, que continua a revelar o cuidado e a dedicação de quem a ergueu e transformou, ao longo dos séculos. “Vemos que, em tudo isto, emociona […] a maneira como se reconstruiu, sempre com finura, com beleza, com fidelidade à história”, sublinha o sacerdote, reconhecendo, contudo, que nem sempre foi possível preservar essa fidelidade em todos os pormenores.

Mais que um monumento classificado, a Sé mantém-se como um espaço intimamente ligado à vida da comunidade. Na perspetiva do Pe. Armando Dias, é um lugar em que a história e o património se cruzam com as experiências pessoais de quem ali entra. É, nas suas palavras, um espaço de vivência, “em que a vida se exprime na alegria e na tristeza, na dor, na esperança”, mas, também, na reflexão e no encontro com Deus.

A intervenção, sob alçada da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), não contempla uma recuperação integral da Sé Catedral, mas incide sobre áreas específicas, consideradas prioritárias. Entre os trabalhos estão a limpeza e recuperação dos tetos e das respetivas pinturas, bem como a criação de um espaço expositivo dedicado aos últimos quatro Bispos da Diocese de Viana do Castelo já falecidos, local em que serão reunidos os seus sinais episcopais, numa homenagem à sua memória. O projeto inclui, ainda, a recuperação de um dos órgãos históricos da Sé. Todo o trabalho se engloba num investimento de 800 mil euros. Apesar desta intervenção, permanecem outros trabalhos por realizar, pelo que a conservação do património deverá continuar nos próximos anos. “Temos muito para fazer ainda”, reconhece o Pe. Armando Dias.

A intervenção ganha, também, um significado particular por coincidir com a celebração dos 50 anos da criação da Diocese de Viana do Castelo. Para o Pe. Armando Dias, este marco representa uma oportunidade para assinalar a renovação do espaço e preservar a memória dos que contribuíram para a história da Igreja diocesana. “A celebração dos cinquenta anos da criação da Diocese […] vem assinalar imenso também esta renovação interior e este espólio de facto”, afirma o sacerdote.

Esta intervenção dá continuidade a uma fase anterior de recuperação, da qual resultou a criação do núcleo museológico da Sé, em que foram restauradas esculturas e imagens religiosas, posteriormente colocadas em exposição. A par destes projetos, a conservação do edifício exige, também, um trabalho contínuo de manutenção, que inclui a limpeza dos telhados, algerozes e canais de água, de forma a prevenir a degradação e a preservar o património.

Mas, como em qualquer obra de recuperação, há também o trabalho especializado de quem está no terreno. Carlos Costa, responsável pelo atelier de conservação e restauro Samthiago, coordena uma intervenção que envolve diferentes profissionais e técnicas, com o objetivo de devolver ao coração da cidade a beleza dos seus revestimentos históricos.

“Fazemos o restauro dos revestimentos interiores da Catedral, nomeadamente da pintura mural e da pedra. É essa, de facto, a intervenção maior que está a ser feita por nós”, explica Carlos Costa.

A necessidade de garantir a segurança do espaço é sublinhada tanto pelo Pároco como pelo técnico de restauro. A intervenção teve, por isso, como principal objetivo eliminar esses riscos e, simultaneamente, recuperar a estética do edifício: “Não digo o aspeto original, porque muito do que vemos já são alterações realizadas ao longo dos séculos, mas recuperar, digamos, a estética daquilo que chegou até nós”, esclarece.

Para a equipa da Samthiago, um dos principais desafios foi garantir que a igreja permanecesse aberta ao culto durante toda a intervenção. “Todos os dias há celebrações, todos os dias temos visitantes”, refere Carlos Costa, explicando que os trabalhos tiveram de ser organizados por fases, sem encerrar o espaço. Esta condicionante exigiu um planeamento rigoros

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