A discussão em torno dos achados arqueológicos encontrados no local onde será construído o novo mercado municipal de Viana do Castelo demonstra que a sociedade vianense sabe mobilizar-se quando sente que a sua história está em causa. E ainda bem, pois o nosso património merece atenção, debate e defesa.
Mas esta mobilização levou-me a uma reflexão acerca do motivo pelo qual demonstramos tanta preocupação com aquilo que acabamos de descobrir e tão pouca persistência na defesa daquilo que ainda podemos salvar?
O Convento de São Francisco do Monte, fundado no final do século XIV, é um dos mais antigos testemunhos da história de Viana do Castelo. Foi o primeiro convento da cidade e um dos primeiros da Ordem Franciscana em Portugal. Depois de séculos de história, transformações e abandono progressivo, chegou aos nossos dias em estado de ruína. Desde 2001, é propriedade do Instituto Politécnico de Viana do Castelo (atualmente Universidade Politécnica de Viana do Castelo), a quem cabe, enquanto proprietária, um papel fundamental na procura de soluções para a sua salvaguarda. Antes de chegar as mãos da UPVC, com a extinção das ordens religiosas o convento foi comprado em hasta pública, em 1834, pelo Visconde de Carreira, transformando-o em exploração agrícola. A partir da década de 60 do século XX, o espaço conventual entrou em progressivo estado de degradação e em 1987 o seu último proprietário, Rui Feijó, doou-o à Misericórdia local.
É difícil não sentir alguma inquietação perante este contraste. Perante uma descoberta arqueológica, multiplicam-se as vozes, as opiniões e a preocupação pública, no entanto, perante um monumento histórico que se degrada há décadas, parece faltar, por vezes, a mesma urgência e mobilização coletiva.
Não pretendo com isto desvalorizar os achados arqueológicos, nem de colocar património contra património, apenas questionar a consistência da nossa consciência cívica. Será que a nossa preocupação com a história depende da novidade, ou somos capazes de manter viva a atenção quando o problema se prolonga no tempo e exige soluções difíceis?
A sociedade não tem de substituir as instituições, nem lhe cabe assumir responsabilidades que pertencem aos proprietários e às entidades públicas, mas pode e deve exigir respostas, acompanhar compromissos e impedir que o silêncio transforme o abandono numa situação aceitável.
Os achados arqueológicos merecem ser protegidos, mas o Convento de São Francisco merece que não desistamos dele enquanto ainda há património a recuperar.
Talvez a verdadeira medida do nosso respeito pela história não esteja só na indignação perante aquilo que pode desaparecer, mas também na capacidade de agir para salvar aquilo que continua de pé ou que ainda pode ser recuperado.
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