Projeto europeu procura conciliar conservação do lobo-ibérico com atividades humanas em Paredes de Coura

O lobo-ibérico continua a marcar a atualidade, sobretudo pelos conflitos associados aos ataques a animais de pecuária e domésticos. Encontrar formas de compatibilizar a conservação da espécie com as atividades humanas é o objetivo do projeto europeu LIFE WILD WOLF, que procura promover a coexistência entre lobos, comunidades locais, paisagens e pecuária.

Catarina Faria
23 Out. 2026 4 mins

O projeto arrancou em janeiro de 2023 e prolonga-se até meados de 2027, envolvendo oito países europeus: Itália, Portugal, Eslovénia, Croácia, Grécia, Chéquia, Alemanha e Suécia. No total, participam 18 entidades, sob coordenação do Instituto de Ecologia Aplicada, sediado em Itália.

Em Portugal, o projeto envolve três entidades: a BIOPOLIS, o Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente (SEPNA) da GNR e o município de Paredes de Coura. É neste concelho que funciona a Plataforma de Agentes Locais (PAL-Coura), que reúne diferentes intervenientes com atividade no território para identificar e implementar medidas concretas que conciliem as atividades humanas com a conservação do lobo-ibérico.

A plataforma procura envolver vários grupos de interesse, desde agricultores e pastores a caçadores, representantes do turismo e organizações ambientais, promovendo a partilha de experiências e a procura conjunta de soluções.

Em Portugal, ao contrário do que acontece atualmente em Espanha, o lobo-ibérico é uma espécie estritamente protegida. Segundo Francisco Álvares, responsável pelo projeto, a população nacional está estimada em cerca de 300 indivíduos, distribuídos por 60 alcateias. O investigador aponta, ainda, para um decréscimo de 10% no número de alcateias e de 20% na área de distribuição da espécie, que associa à “elevada perseguição humana”.

O trabalho desenvolvido no âmbito do projeto abrange três áreas do Alto Minho: a Serra d’ Arga, a Serra do Corno de Bico e o Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Entre os objetivos do LIFE WILD WOLF estão a gestão da presença do lobo em ambientes urbanos, a prevenção de ataques a animais de pecuária e domésticos, a melhoria dos habitats para favorecer a presença de ungulados silvestres (potenciais presas naturais do lobo) e a promoção de sessões de esclarecimento e de envolvimento da sociedade.

É precisamente na participação dos diferentes intervenientes que Francisco Álvares identifica uma dimensão central do trabalho. As sessões participativas decorrem desde junho de 2024 e reúnem representantes de organizações não governamentais ambientais, explorações agrícolas, pastores, caçadores e outros agentes locais. A mais recente e última realizou-se em outubro de 2026, com o objetivo de apresentar conclusões e discutir medidas a implementar.

A proposta em discussão passa pela criação de um e-book com boas práticas dirigidas aos diferentes agentes do território, orientações para as autoridades e recomendações relacionadas com a certificação de atividades que promovam uma convivência adequada com a espécie.

“O que estamos a defender é que possivelmente a melhor solução poderá passar pela criação de um e-book com boas práticas que possam ser aplicadas por vários agentes do território”, explicou Francisco Álvares.

O investigador considera que a conservação do lobo não deve ser encarada apenas a partir dos conflitos com a atividade pecuária, defendendo uma abordagem que envolva outros sectores. “A pecuária é o mais evidente, mas também o turismo, a cinegética e a gestão florestal. Se queremos populações de presas naturais do lobo, esses também são sectores importantes”, salientou.

A valorização de quem adota boas práticas de coexistência é outra das possibilidades em análise, através de uma eventual marca ou certificação que permita reconhecer esses comportamentos e beneficiar as atividades económicas associadas.

“Temos que procurar soluções de coexistência que não passem, obviamente, pelo abate de lobos e que não passem só pela compensação dos ataques”, sublinhou Francisco Álvares.

A plataforma pretende, assim, contribuir para uma abordagem participativa à conservação do lobo-ibérico, procurando que as conclusões do trabalho se traduzam em medidas concretas no território.

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