Chamado ao Consultório: Espirrar todos os dias não é normal

Maria Luís Cambão
4 Mai. 2026 4 mins

Com a chegada da primavera, chegam também os dias mais longos e solarengos, propícios a passeios e atividades ao ar livre. Podia ser tudo perfeito, não fossem os espirros, olhos vermelhos ou a comichão que começam a surgir. Há pessoas que passam metade do ano a espirrar. Outras acordam quase todos os dias com o nariz tapado. Muitas convivem com olhos constantemente vermelhos, a arder ou a lacrimejar. E, ainda assim, a resposta é quase automática: “é normal, sempre fui assim”. Mas será normal?

Este mês, é Chamado ao Consultório para falar sobre uma doença muito frequente, mas ainda bastante desvalorizada: a rinite alérgica, a doença alérgica mais comum.

Apesar de todos saberem que as “alergias” são muito comuns, poucos reconhecem a rinite alérgica como uma verdadeira doença — com impacto real na qualidade de vida — e não como apenas um incómodo passageiro que se tem de aguentar.

A rinite alérgica acontece quando o nosso sistema imunitário reage de forma exagerada a substâncias habitualmente inofensivas, como pólenes, ácaros do pó doméstico, pêlos de animais ou fungos. O resultado são um nariz e olhos permanentemente irritados, levando ao aparecimento dos sintomas clássicos: espirros frequentes, nariz a pingar ou entupido, comichão nasal e olhos vermelhos, a lacrimejar ou com comichão. Algumas pessoas referem, ainda, comichão no céu‑da‑boca, garganta irritada, tosse seca ou sensação de ouvidos tapados. Ao contrário das constipações, a rinite alérgica não provoca febre, não melhora espontaneamente ao fim de poucos dias e pode manifestar-se durante semanas, meses ou até todo o ano.

Apesar dos sintomas serem aparentemente ligeiros, o impacto desta doença vai muito além do nariz e dos olhos. Dormir mal por causa da obstrução nasal, acordar cansado, ter dificuldade de concentração no trabalho ou na escola e andar constantemente irritado são consequências frequentes. Em crianças e adolescentes, pode mesmo afetar o rendimento escolar; nos adultos, a produtividade e o bem‑estar diário.

A boa notícia é que há tratamento eficaz. O diagnóstico é, na maioria das vezes, clínico e pode ser feito pelo médico de família. Existem medicamentos seguros e bem estudados — como anti‑histamínicos modernos e sprays nasais específicos — que, quando usados corretamente, permitem um bom controlo dos sintomas. Em alguns casos, podem ainda ser consideradas medidas adicionais, como a imunoterapia (mais conhecida por “vacinas das alergias”).

Para além do tratamento, há alguns cuidados que podemos ter para prevenir o contacto com os alergénios que nos provocam sintomas. Por exemplo, as pessoas que têm sintomas mais no espaço exterior e durante a primavera, é mais provável que sejam alérgicas aos pólenes e, por isso, há alguns cuidados que podem ter, como acompanhar os boletins polínicos e evitar atividades ao ar livre de manhã muito cedo, pois é quando se observa uma maior libertação de pólenes, manter as janelas de casa e do carro fechadas quando as contagens de pólenes forem elevadas ou em dias quentes e secos, ou ventosos, usar óculos escuros fora de casa para proteger os olhos, evitar caminhar em grandes espaços relvados ou cortar relva na Primavera.

Em suma, o mais importante a reter é que espirrar todos os dias, ter o nariz sempre entupido ou os olhos a arder, não é normal. Tratar a rinite alérgica é mais do que aliviar o nariz — é melhorar o sono, a energia e a qualidade de vida.

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