Ontem à noite, a secção de Viana do Castelo do partido Chega partilhou, nas suas redes sociais, uma mensagem de avaliação da Romaria da Senhora da Agonia. Para não ser acusado de incompatibilidades pessoais e familiares, prefiro manter o silêncio sobre o conteúdo da mensagem, assim como não comentarei a tentativa de oposição entre as instituições públicas e a referida componente religiosa. Quem já teve de tomar decisões com impacto público sabe que nem sempre há certo e errado, que por vezes existem males menores e que, em muitas ocasiões, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Mas sobre isso, para não ser sequer acusado de estar a entrar no debate político, manterei o silêncio.

Chega – Viana do Castelo
O que não pode deixar de merecer um claro reparo é a imagem que acompanha a publicação e que, aqui, se reproduz. É inaceitável esta colagem da Senhora da Agonia ao partido Chega. A Senhora da Agonia não é do partido A nem do partido B. A Senhora da Agonia pertence aos vianenses no seu todo. Sejam eles do Chega, do PSD, do PS ou do BE. Que fique claro: a Igreja não apoia nem perfilha nenhum partido político nem programa eleitoral em específico. O Evangelho não é de direita nem de esquerda, assim como as Festas da Senhora da Agonia não têm lado político. No limite, a Igreja não existe para “Salvar Portugal”. Existe para ajudar e facilitar o caminho de salvação de todos os seres humanos.
Infelizmente, esta lógica divisiva e de apropriação cultural tem sido cada vez mais frequente. Donald Trump representou-se como um novo Jesus Cristo milagreiro. Desta vez, o Chega de Viana do Castelo teve a feliz ideia de pôr o olhar inspirador de André Ventura dirigido sobre o andor da Senhora da Agonia. Trump inventou uma desculpa esfarrapada para parar de ser satirizado pelo Papa. Também não creio que o Chega retire a infeliz publicação.
Como defensor da laicidade do Estado, fere-me esta tentativa de colagem entre a esfera religiosa e a esfera política. Não fico preocupado se um político se assume como cristão, se aparece nas festas da Agonia ou numa missa. Preocupa-me que o seu projeto político viva da utilização do contexto religioso para, assim, divinizar líderes e projetos políticos.
A certa altura, o texto do Chega diz: “importa garantir que o protagonismo pertence à Senhora d’Agonia, à fé, aos pescadores e às gentes da Ribeira, e que a componente institucional nunca se sobrepõe à essência daquele momento”. Agora olhem para a imagem. Notam alguma incoerência? É óbvio, não é? Quem é que está a pedir que se garanta o protagonismo da Senhora da Agonia, para depois espetar em 2/3 da imagem o cartaz do próprio partido? Quem é? Já sabemos a resposta.
Isto vale para o Chega como para qualquer outro partido político. Como cristão, não quero ver imagens de santos, de Maria ou de Jesus Cristo utilizadas em marketing partidário. Como cristão, não quero ver frases da Bíblia adulteradas para fins políticos. Como cristão, não quero que os organismos públicos divinizem a Igreja, mas também não quero que se tentem aproveitar dela para fins eleitorais ou pessoais. Como cristão, não quero ver as igrejas transformadas em comícios partidários. Mas também não quero que os cristãos tenham medo de denunciar sempre que o nome de Deus é invocado em vão.
Independentemente de quem somos, a Senhora da Agonia é o tempo, o lugar e a pessoa em que todos nós nos reconhecemos. Nela todos os vianenses se sentem alguém. Durante a Romaria, todos sentimos que, embora a nossa vida possa ser precária, pertencemos a algum lado e, acima de tudo, a alguém. Não contaminemos toda esta beleza com propaganda. Como vianense, não aceito isso. Como cristão, muito menos.
A corrupção pode ser definida como a desonestidade praticada por uma pessoa ou organização a quem é confiada uma posição de autoridade, a fim de obter benefícios ilícitos, ou como o abuso de poder para ganho pessoal. Será que ela também não se manifesta sempre que usamos um bem imaterial público, como a Senhora da Agonia, em nosso próprio benefício? Não estamos já há muito cansados de ver o que é comum ser usado como galhardete de tensões, muitas vezes, artificiais? Mais grave do que ter problemas é criar problemas.
Discutam o que quiserem sobre as Festas. Deixem a Senhora da Agonia fora das lutas pelo poder. Não a usem. Não a manipulem. Não é deste protagonismo que ela precisa. Se quiserem fazer algo, rezem-lhe. Ela não deixará de vos ouvir.
Link da publicação do Chega – Viana do Castelo: https://www.facebook.com/share/p/1C9sUqN8TY/
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