Mês de férias, de lazer, de esquecer arrelias. Mês da Festa, de animação. Mês de coisas simples, bem dispostas. Mês de…
Lendo, e ler é sempre um manancial de ideias, de recordações, de conhecimento, vieram-me à mente palavras que já não se usam. Não me refiro a “soer”, a “arrátel” ou “doesto”, mas palavras que há anos usavam todos os da minha idade ou próxima. Palavras que não saíram do dicionário, mas saíram do dia a dia.
Há anos (sem necessidade de “atrás) se não queríamos um deslavado café de saco, tínhamos de pedir um cimbalino (nome criado a partir da máquina La Cimballi). Hoje, o termo desapareceu, mas foram criados outros para pedir essa bebida – cheio, curto, sem princípio, ¾, italiana… A chávena pode ser quente ou fria, com açúcar ou com adoçante, que se pedia Hermesetas. Uma dor de cabeça para quem nos serve! Podia-se beber um mazagran, um pirolito, umas Pedras com pneu, uma Cuba Libre, um copo de três…
Abria-se uma ementa, mais menú, e lá estavam os acepipes (palavra encontrada, há tempos, no restaurante da Cooperativa dos Pedreiros, no Porto). Em qualquer copo d’água, havia os acepipes, a lagosta suada (ainda não existia o PAN), a língua afiambrada, que saudades, e cup uma bebida bem fresquinha que tinha um aspecto inofensivo…
As senhoras usavam meias de vidro, com ou sem costura, que as apanhadeiras de malhas consertavam, ou meias-calças,. Não se usavam vestidos sem uma combinação bem rendada ou um saiote. Como poucos jogavam ténis, calçavam-se sapatilhas (diz-se uma sapatilha, mas não se diz um téni…). Algumas peças de vestuário eram designadas pela marca – umas Levi’s, os Kispos (agora parka), uma Lacoste ou uma Fred Perry.
Os aparos e os tira–linhas faziam-nos suar nas aulas da primária e nas de desenho. Se voltamos à escola, então o mundo das palavras não tem espaço suficiente aqui. Os pais deixaram de ser pais, alguns literalmente, e passaram a ser encarregados de educação de alunos que, agora, são educandos. Os alunos passavam, não passavam, aprovavam, reprovavam, transitavam, não transitavam. Os contínuos foram auxiliares, assistentes operacionais. Os pontos são testes, provas, etc, etc.
Na hotelaria, restaurantes e afins (restauração só a de 1640), tínhamos casas de pasto com a sua porta vermelha de vaivém, a taberna, a adega que deram lugar às tascas mais chiques e a restaurantes. Pensões, estalagens, hospedarias, tudo são hotéis.
Mas é nas profissões que mais palavras desapareceram. O sinaleiro foi substituído pelos semáforos, o polícia de giro deixou de girar… a pé e o guarda-nocturno desapareceu na noite. A DHL e quejandos são os novos recoveiros. O marçano já nem numa loja gourmet. Paquete nem como profissão, nem como navio. Engraxadores há muitos, muita graxa, mas não da verdadeira… a criada já é colaboradora e o jornaleiro nem sei como se chama. Até o coveiro é um assistente operacional com a especialidade ou função de coveiro. Os ardinas voaram, assim como muitos locais de venda de jornais e de revistas. Quem muito simpaticamente disponibiliza aos amigos e conhecidos, todos os dias, ilegalmente, os jornais, on line, está a cavar a sepultura (lá vem o coveiro, desculpem o assistente operacional) desses órgãos de informação.
Lembro-me de o meu pai se referir ao asfalto como macadame.
Podia continuar, mas deixo a cada um de vós esse exercício. Poderemos recuperar algumas dessas palavras. O vocabulário actual está a diminuir.
NOTA – Quero agradecer a todas as amigas que me ajudaram neste levantamento. São cachopas, janotas, cheias de pachorra para me aturar e nada flausinas.
SUGESTÕES
Ler – O homem que lia livros, Rachid Benzine, Bertrand Editora, 2026 (devia ser de leitura obrigatória)
Ver – Exposição Ceràmica Artística Vianense: desde 1774, exposição da colecção de Hugo Sá Lima, Museu de Artes Decorativas (de visita obrigatória)
(Escrito de acordo com a ortografia antiga)
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