Autarquia do Porto vê “fluidez” e “resultados positivos” no corte da VCI: transportadoras do Alto Minho enfrentam “mais custos”

Há quase um mês que o Governo proibiu, através de Decreto-lei, a circulação de veículos pesados de mercadorias na Via de Cintura Interna (VCI), que liga o Porto a Vila Nova de Gaia, ao longo de mais de 20 quilómetros. A medida, há vários anos reivindicada pelos autarcas dos dois municípios, pretende melhorar a fluidez do tráfego, reforçar a segurança rodoviária e promover uma mobilidade mais sustentável na Área Metropolitana do Porto.

Catarina Faria
13 Out. 2026 4 mins

O condicionamento vigora nos dias úteis, entre as 7h00 e as 21h00, e tem como objetivo reduzir em 60% a circulação de veículos pesados na VCI. À data do anúncio da medida, a Infraestruturas de Portugal estimava que a restrição pudesse retirar cerca de quatro mil veículos pesados de mercadorias daquela via, por dia.

Como alternativa, as empresas de transporte que utilizavam a VCI como eixo de passagem passaram a ser encaminhadas para a Circular Regional Externa do Porto (CREP), também denominada A41. No entanto, apesar de a nova rota permitir contornar a zona condicionada, a alteração representa um acréscimo significativo na distância percorrida por algumas transportadoras.

É o caso da Transneiva – Sociedade de Transportes, empresa sediada em São Romão do Neiva, em Viana do Castelo. Apesar de estar a mais de 80 quilómetros do centro da intervenção, a empresa considera que as novas regras já estão a ter impacte na sua atividade. Segundo Hugo Liquito, gestor de frota da transportadora, o corte à circulação de pesados está a “obrigar os transportadores a percorrer mais cerca de 30 quilómetros por viagem”.

O responsável explica que um percurso que, anteriormente, rondava os 27 quilómetros passou, agora, para cerca de 54 quilómetros, praticamente duplicando a distância. “Só este acréscimo poderá representar um custo superior a 50 euros por viatura pesada”, estima Hugo Liquito, tendo em conta o preço atual dos combustíveis e os restantes encargos associados à circulação.

O impacte, contudo, não se resume ao aumento do consumo de combustível. Os quilómetros adicionais traduzem-se, também, em mais tempo de circulação, maior desgaste das viaturas e mais horas de trabalho para os motoristas, podendo, ainda, interferir com os períodos de descanso previstos para os profissionais do sector.

“Quem vai pagar isto tudo, é o consumidor final”, afirma, explicando que, numa atividade em que os serviços são frequentemente calculados em função dos quilómetros percorridos, os cerca de 30 quilómetros adicionais acabam por ser refletidos no preço do transporte.

Apesar da isenção de portagens na A41 para os veículos pesados, Hugo Liquito considera que a medida não elimina os encargos provocados pelo desvio.

Segundo o gestor, os motoristas que circulam habitualmente na zona têm transmitido que o desvio “não tem qualquer reflexo a nível de fluidez na zona da VCI”. Na perspetiva do responsável, a retirada dos veículos pesados daquela via não estará a produzir o efeito pretendido na redução do trânsito, enquanto os transportadores são obrigados a realizar percursos mais longos.

A circulação na zona condicionada pode, ainda assim, ser autorizada em determinadas situações. Os veículos pesados que tenham como origem ou destino os municípios do Porto ou de Vila Nova de Gaia, para efeitos de carga ou descarga de mercadorias, podem continuar a utilizar a VCI durante o período de interdição. Para tal, as empresas têm de requerer, previamente, uma habilitação de circulação através da plataforma digital disponibilizada pelos municípios do Porto e de Vila Nova de Gaia.

Também este procedimento representa custos adicionais para as empresas. De acordo com Hugo Liquito, a transportadora tem, atualmente, um trabalhador dedicado ao preenchimento e acompanhamento dos registos na plataforma. O processo implica indicar antecipadamente dados relativos à origem, carga, descarga e destino, bem como as respetivas datas e horas, sendo posteriormente emitido um código de autorização para a circulação.

Uma leitura que contrasta com a das transportadoras do Alto Minho é a avaliação feita pelo município do Porto. Recentemente, o presidente da Câmara Municipal do Porto, Pedro Duarte, fez um balanço “extraordinariamente positivo” da primeira semana de aplicação da medida, considerando que a restrição já estava a produzir efeitos na circulação.

“As pessoas, entre um ponto e outro, estão a chegar muito mais depressa, havendo uma fluidez de trânsito bastante mais significativa”, afirmou o autarca.

Tags Economia

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