“Atravessar”: Comédias do Minho transformam autocarro em palco para uma viagem pelo imaginário do Alto Minho

As Comédias do Minho vão percorrer diferentes freguesias dos cinco concelhos do Vale do Minho (Valença, Melgaço, Vila Nova de Cerveira, Monção e Paredes de Coura) com o mais recente espetáculo, “Atravessar”, que propõe uma viagem pelo imaginário da região, dando uma nova vida às histórias, mitos e lendas locais. O objetivo passa por levar cada espetador a descobrir outras perspetivas sobre o território e as suas narrativas. O desafio? Fazer tudo isto dentro de um autocarro. Em movimento.

Catarina Faria
6 Nov. 2026 4 mins

A nova criação da companhia de teatro transforma um autocarro num palco itinerante, levando o público numa viagem pelo território, pelas suas memórias, histórias e lendas. O espetáculo estreia a 6 de novembro, em Valença, e percorre diferentes freguesias do Vale do Minho até 6 de dezembro. A última produção das Comédias do Minho para 2026 convida os espetadores a “embarcar numa experiência teatral invulgar”, em que o próprio percurso se torna parte da narrativa. 

“Mais do que representar ou ilustrar a paisagem, ATRAVESSAR procura revelar aquilo que nela não é imediatamente visível: as camadas de memória, imaginação e narrativa que constroem a identidade de um lugar”, lê-se em comunicado.

O texto e a direção artística estão a cargo de Raquel S., natural de Monção, que recebeu o convite para desenvolver a criação no final do ano anterior. A proposta já contemplava a principal particularidade do espetáculo: decorrer no interior de um autocarro em movimento. Perante este desafio, a responsável artística quis que a encenação fosse, também, uma viagem pelo tempo e pelo imaginário da região, tal como explica: “Já que o espetáculo era dentro de um autocarro, eu gostava que fosse uma viagem, não só através deste espaço, mas também através do tempo e do imaginário que emerge do espaço”. 

Em ATRAVESSAR, o autocarro assume-se simultaneamente como palco, janela e máquina do tempo. O público embarca numa espécie de excursão teatral, percorrendo um itinerário circular pelas freguesias de cada concelho, com partida e chegada no mesmo local. Ao longo do trajeto, a paisagem observada através da janela integra a própria encenação, criando um encontro entre o território físico e as histórias, memórias e personagens que nele habitam. 

Para Raquel S., a noite assume-se como um elemento central na construção do espetáculo e constitui uma das principais linhas de pensamento da criação artística. A partir dela, a encenação explora o imaginário que a envolve, nomeadamente “as mitologias em relação à noite, sobre o medo e o que é que ele significa”, explica a responsável, que procura compreender de que forma estas crenças e narrativas continuam a marcar a relação das comunidades com o território. 

A vontade de fugir às representações mais tradicionais do território minhoto prende-se com a intenção da diretora artística de “combater este mito do Minho associado à broa, ao pão e ao rancho”, procurando explorar outras dimensões da identidade da região. Nesse sentido, o processo criativo passou por uma investigação em torno de elementos menos explorados do imaginário popular. “Fomos pesquisando, discutindo e pensando sobre a magia, o sobrenatural, porque é que a noite é importante, porque é que existem estes mitos e qual é a função deles nas sociedades», explica Raquel. 

“A ideia era criar artisticamente a partir do contexto, mas não no sentido da preservação, e sim no sentido da alteração. Como é que trabalhamos artisticamente este repositório, que é de todos? Estudámos muito, lemos contos e lendas, ouvimos entrevistas, entrevistamos algumas pessoas e consultamos estudos antropológicos e etnográficos sobre esta região”, revelou Raquel S.

A responsável destaca, assim, um processo de pesquisa e recolha que serviu de base à construção do espetáculo, procurando não reproduzir fielmente as narrativas tradicionais, mas antes interpretá-las e dar-lhes uma nova expressão artística.

Apesar de partir de uma forte inspiração nos contos tradicionais, o espetáculo procura dar-lhes uma nova abordagem artística. A intenção passa por “trabalhá-los esteticamente”, conferindo-lhes “outro tempo, outro espaço e outra forma”, numa perspetiva “menos expectável”, salientou a diretora artística. 

O calendário completo das apresentações, com as respetivas datas, horários, locais de partida e contactos para inscrição, encontra-se disponível no site oficial das Comédias do Minho. 

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