As Comédias do Minho vão percorrer diferentes freguesias dos cinco concelhos do Vale do Minho (Valença, Melgaço, Vila Nova de Cerveira, Monção e Paredes de Coura) com o mais recente espetáculo, “Atravessar”, que propõe uma viagem pelo imaginário da região, dando uma nova vida às histórias, mitos e lendas locais. O objetivo passa por levar cada espetador a descobrir outras perspetivas sobre o território e as suas narrativas. O desafio? Fazer tudo isto dentro de um autocarro. Em movimento.
A nova criação da companhia de teatro transforma um autocarro num palco itinerante, levando o público numa viagem pelo território, pelas suas memórias, histórias e lendas. O espetáculo estreia a 6 de novembro, em Valença, e percorre diferentes freguesias do Vale do Minho até 6 de dezembro. A última produção das Comédias do Minho para 2026 convida os espetadores a “embarcar numa experiência teatral invulgar”, em que o próprio percurso se torna parte da narrativa.
“Mais do que representar ou ilustrar a paisagem, ATRAVESSAR procura revelar aquilo que nela não é imediatamente visível: as camadas de memória, imaginação e narrativa que constroem a identidade de um lugar”, lê-se em comunicado.
O texto e a direção artística estão a cargo de Raquel S., natural de Monção, que recebeu o convite para desenvolver a criação no final do ano anterior. A proposta já contemplava a principal particularidade do espetáculo: decorrer no interior de um autocarro em movimento. Perante este desafio, a responsável artística quis que a encenação fosse, também, uma viagem pelo tempo e pelo imaginário da região, tal como explica: “Já que o espetáculo era dentro de um autocarro, eu gostava que fosse uma viagem, não só através deste espaço, mas também através do tempo e do imaginário que emerge do espaço”.
Em ATRAVESSAR, o autocarro assume-se simultaneamente como palco, janela e máquina do tempo. O público embarca numa espécie de excursão teatral, percorrendo um itinerário circular pelas freguesias de cada concelho, com partida e chegada no mesmo local. Ao longo do trajeto, a paisagem observada através da janela integra a própria encenação, criando um encontro entre o território físico e as histórias, memórias e personagens que nele habitam.
Para Raquel S., a noite assume-se como um elemento central na construção do espetáculo e constitui uma das principais linhas de pensamento da criação artística. A partir dela, a encenação explora o imaginário que a envolve, nomeadamente “as mitologias em relação à noite, sobre o medo e o que é que ele significa”, explica a responsável, que procura compreender de que forma estas crenças e narrativas continuam a marcar a relação das comunidades com o território.
A vontade de fugir às representações mais tradicionais do território minhoto prende-se com a intenção da diretora artística de “combater este mito do Minho associado à broa, ao pão e ao rancho”, procurando explorar outras dimensões da identidade da região. Nesse sentido, o processo criativo passou por uma investigação em torno de elementos menos explorados do imaginário popular. “Fomos pesquisando, discutindo e pensando sobre a magia, o sobrenatural, porque é que a noite é importante, porque é que existem estes mitos e qual é a função deles nas sociedades», explica Raquel.
“A ideia era criar artisticamente a partir do contexto, mas não no sentido da preservação, e sim no sentido da alteração. Como é que trabalhamos artisticamente este repositório, que é de todos? Estudámos muito, lemos contos e lendas, ouvimos entrevistas, entrevistamos algumas pessoas e consultamos estudos antropológicos e etnográficos sobre esta região”, revelou Raquel S.
A responsável destaca, assim, um processo de pesquisa e recolha que serviu de base à construção do espetáculo, procurando não reproduzir fielmente as narrativas tradicionais, mas antes interpretá-las e dar-lhes uma nova expressão artística.
Apesar de partir de uma forte inspiração nos contos tradicionais, o espetáculo procura dar-lhes uma nova abordagem artística. A intenção passa por “trabalhá-los esteticamente”, conferindo-lhes “outro tempo, outro espaço e outra forma”, numa perspetiva “menos expectável”, salientou a diretora artística.
O calendário completo das apresentações, com as respetivas datas, horários, locais de partida e contactos para inscrição, encontra-se disponível no site oficial das Comédias do Minho.
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