Radão: gás invisível representa risco para a saúde e ventilação pode ajudar a reduzir exposição

A maioria das pessoas desconhece a sua presença, mas o radão pode estar no interior das casas, dos locais de trabalho e de outros edifícios. Trata-se de um gás radioativo de origem natural, incolor e inodoro, cuja acumulação em espaços fechados pode representar um risco para a saúde, sobretudo quando a exposição é prolongada.

Catarina Faria
2 Nov. 2026 5 mins

O radão resulta da desintegração radioativa do urânio, um elemento químico presente naturalmente nos solos e nas rochas. Pode entrar nos edifícios através do contacto com o solo, estar presente na água e ser libertado por alguns materiais de construção. Em espaços pouco ventilados, pode acumular-se e aumentar o risco de desenvolvimento de cancro do pulmão.

Segundo Inês Simões, representante da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), a exposição prolongada ao radão pode ter consequências para a saúde, uma vez que o gás origina partículas radioativas que, quando inaladas, podem danificar os tecidos pulmonares. Estima-se que a exposição ao radão esteja associada a cerca de 3% a 14% dos casos de cancro do pulmão a nível mundial.

Uma das dificuldades na identificação deste gás é precisamente a impossibilidade de detetar a sua presença através do cheiro, da cor ou de qualquer outro sinal percetível. Por isso, a avaliação das concentrações exige medições específicas.

O norte de Portugal, incluindo o Alto Minho, apresenta zonas com potencial para concentrações elevadas de radão, devido às características geológicas dos solos e à presença de urânio. No entanto, os níveis variam de local para local, pelo que a avaliação do risco depende de medições concretas nos edifícios.

A preocupação com a exposição ao radão levou a União Europeia a estabelecer, através da Diretiva 2013/59/Euratom, normas de segurança para a proteção contra os perigos resultantes da exposição a radiações ionizantes. Entre as medidas previstas está a definição de níveis de referência para a concentração de radão nos espaços interiores, fixados em 300 becqueréis por metro cúbico (Bq/m³). Em Portugal, o Plano Nacional para o Radão, publicado em 2022, estabelece orientações para prevenir e reduzir a exposição a este gás. Segundo a representante da APA, existem, também, guias de apoio destinados às entidades empregadoras.

A necessidade de aumentar o conhecimento sobre o tema esteve em destaque numa sessão realizada recentemente no auditório Professor Lima de Carvalho, em Viana do Castelo. Leonel Nunes, professor e investigador da Universidade Politécnica de Viana do Castelo (UNIPVC), defendeu a importância de sensibilizar a população para os riscos associados ao radão, sem promover alarmismos.

“Aquilo que nós pretendemos essencialmente é chamar a atenção para um problema que ainda é um tema de nicho, muito pouco desenvolvido”, afirmou, salientando que “existem soluções quer para identificar o problema, quer para depois podermos avançar para a mitigação ou para soluções aplicáveis à construção nova”.

O investigador sublinhou que os efeitos na saúde estão sobretudo relacionados com a exposição prolongada, ou seja, “não é por entrar numa sala com radão que vou ter um problema de cancro do pulmão, mas, se estiver exposto a essa mesma sala durante longos períodos, por exemplo, durante 30 anos na casa onde vivo e onde durmo oito ou dez horas por dia, no final posso ter consequências com isso”, explicou.

A ventilação é uma das principais medidas para reduzir a concentração de radão no interior dos edifícios, sendo esta a “solução mais aplicável neste momento”, dado que “permite ter resultados mais rápidos”, referiu Leonel Nunes.

A investigação desenvolvida pela equipa passou por várias etapas, incluindo o desenvolvimento de tecnologia para a deteção e monitorização contínua do radão. O trabalho permitiu criar um equipamento capaz de processar informação de forma contínua, através de um sistema autónomo sem fios que esteve em funcionamento durante dois anos.

A monitorização permite conhecer as concentrações do gás e identificar situações que possam exigir medidas de prevenção ou intervenção. A medição, a avaliação do risco e a aplicação de soluções de mitigação constituem, assim, etapas fundamentais para reduzir a exposição, tanto em edifícios existentes como em novas construções.

Também António Curado, pró-reitor para a Sustentabilidade e Património da UNIPVC, destacou a importância de abordar o tema com rigor científico e de reforçar a sensibilização pública.

“É fundamental trazer o tema do gás radão e da qualidade do ar interior para a discussão em ambiente académico. O radão é um gás radioativo natural e a segunda principal causa de cancro do pulmão a nível mundial, mas a discussão do tema deve fazer-se sem mitos, falsas verdades ou alarmismos, simplificando o assunto sem perder o rigor técnico-científico”, afirmou.

O responsável salientou, ainda, que existem soluções para intervir nos edifícios e reduzir a concentração do gás. “As soluções técnicas para a mitigação do gás radão em edifícios são altamente eficazes e é totalmente possível e viável atuar em edifícios já construídos”, explicou, no âmbito da apresentação dedicada às medidas de mitigação.

A iniciativa decorreu no âmbito do projeto europeu LeaRn4LIFE, financiado pelo programa LIFE e coordenado pela APA. O projeto pretende promover a qualificação técnica e a sensibilização pública para a prevenção e redução da exposição ao radão, contribuindo para um melhor conhecimento dos riscos associados à sua presença nos edifícios e das medidas disponíveis para os minimizar.

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