Passou a azáfama, a euforia do Verão. Esfalfados de tanta praia, de tanto bronzeado, de tanto festival de música, de tantos sunsets, de tantas noites pequenas, mal dormidas, de tanto cansaço, a chegada do Outubro é bem recebida.
Há anos, quando havia estações do ano bem definidas, o mês de Setembro já era de repouso, de ida para o campo e para as termas, os que podiam, claro.
Tempo de colheitas, de vindimas. Agora, as vindimas são em Agosto, em algumas regiões, feitas de noite por causa do calor. Já não é a mesma festa, não há a distribuição, politicamente muito pouco correcta, de cigarros aos homens e de rebuçados às mulheres. Por vezes, havia música no final.
Tudo mudou, tudo se comercializou, se “turistou”, very typical… Há nacionais que ficam encantados, embasbacados, mesmo, por passarem um dia a brincar ao faz de conta, no campo onde nunca tinham estado. Podem pôr a mão na terra, usar uma tesoura, tudo com luvas, fotografar-se para postar no Instagram. Uma experiência, um novo conceito. Terão reparado nos “colegas” de trabalho que começaram bem mais cedo que nem levantam a cabeça e carregam cestos pesadíssimos? Não é experiência, é sobrevivência.
Era o tempo de se guardar as maçãs para todo o ano e da jornada trabalhosíssima da confecção da marmelada, da geleia e das compotas. Marmelada passada à mão por uma peneira muito fina, que só servia para esse fim, depois de ter sido cozida num grande tacho de cobre – que perigo! Não havia a Bimby. O papel para cobrir as tigelas era seda e recortava-se. Algumas horas ao sol para secar com as abelhas a sobrevoá-las excitadíssimas. Quem se lembra?
Vestíamos os primeiros casacos de meia estação. Os jardins cobriam- se do vermelho ao castanho dourado. Os dias pareciam encolher, devagar, com um ar mais frio, pediam o aconchego de um chá e de um livro.
Os crisântemos, bem amarelos, flor que muito aprecio, memórias de Virginia Woolf e de D. H. Lawrence, aqueciam qualquer sala.
As aulas começavam no dia 7 de Outubro. As férias tinham sido, realmente, grandes.
Tudo acalmava. O Outono tinha chegado na sua plenitude.
Com ele a nostalgia de quem já está a ultrapassar o Outono da vida.
SUGESTÕES:
Ler – O novo elogio do imbecil, Pino Aprile, Bookout, 2026
Ouvir – Autumn leaves Nat King Cole
(Escrito de acordo com a ortografia antiga)
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