O Cortejo Histórico-Etnográfico das Festas de Nossa Senhora d’Agonia é, há várias décadas, uma das grandes expressões da identidade de Viana do Castelo. Construído em articulação com as freguesias, grupos folclóricos e associações do concelho, o cortejo foi-se afirmando como uma representação dos usos, costumes, trajes e tradições vianenses.
Ao longo dos anos, os temas foram mudando para renovar o espetáculo, enquanto os meios técnicos também evoluíram, dos carros alegóricos puxados por animais aos atuais tratores e estruturas motorizadas. Mas, para Hermenegildo Viana, membro da VianaFestas, empresa responsável pela organização do cortejo, há algo que permanece intocável: a sua identidade, tudo “é feito com as tradições, usos e costumes vianenses”, afirma.
Organizar o cortejo é um trabalho que começa muitos meses antes de as ruas de Viana do Castelo se encherem de gente. Para Hermenegildo Viana, há uma palavra que resume aquilo que está por detrás de todo o processo: amor. “O amor que remete à história”, é ums sintética frase que explica o motivo de a edição deste ano parte precisamente desse sentimento, não apenas como sendo algo natural dos vianenses, mas como dedicação à festa, à devoção, à música, ao folclore, aos trajes, aos tapetes de sal.
O trabalho com as freguesias é uma das bases do cortejo, explica Hermenegildo Viana, salientando que esta é uma relação construída “há várias décadas” e que se renova todos os anos através da escolha de novos temas. É com eles que surgem as propostas e se vão alternando os projetos, até porque “se fossem sempre tudo igual acabava por ser um bocado chato para quem está a ver”, admite Hermenegildo. Por isso, a organização contacta freguesias, grupos folclóricos e associações do concelho, procurando construir em conjunto aquilo que será apresentado durante o desfile.
Embora o cortejo aconteça num único dia, a sua preparação prolonga-se durante vários meses. Primeiro escolhe-se o tema, depois constrói-se o guião, definem-se os carros alegóricos, a ordem dos quadros e os trajes que terão maior destaque. “É um trabalho que leva vários meses de preparação”, conta Hermenegildo, embora reconheça que “o grosso do trabalho” é “nos últimos três, quatro meses antes das festas”.
Por detrás do espetáculo está uma grande estrutura. Os carros alegóricos são preparados nos armazéns municipais, onde existem equipas especializadas em áreas como carpintaria, serralharia, escultura e pintura. O processo começa com uma maquete e passa depois pela escolha das cores e dos materiais, antes de o trabalho ser distribuído pelas diferentes equipas. Os carros são apenas uma parte do cortejo. “A parte do traje, quem vem, o que traz, em que adereços trazem”, é um trabalho mais de voluntariado das Juntas, associações e grupos folclóricos que para Hermenegildo são “a alma deste evento”.
Essa transmissão de conhecimento também passa pelas novas gerações. Nos armazéns municipais convivem trabalhadores de diferentes idades e existem ainda estágios com alunos de escolas secundárias, que aprendem técnicas como a escultura ou o trabalho com pasta de papel.
Apesar da dimensão crescente das Festas da Agonia, Herminigildo Viana defende que o cortejo não deve perder a sua identidade para acompanhar as expectativas do público, afirmando que “não é o cortejo que se tem de adaptar ao público”. Há mudanças, mas inserem-se sobretudo no plano técnico, no que toca a modas técnicas, a novos materiais e na forma de executar os carros, no entanto a identidade, essa, permanece: “Os trajes são nossos, as pessoas são senhores do concelho e o que vão apresentar é a nossa história”.
No próprio dia do cortejo, a azáfama começa de madrugada. Os carros saem dos armazéns e são colocados no Jardim Marginal pela ordem definida para o desfile. Depois chegam os tratores, os participantes, os figurantes, os músicos e todos aqueles que dão vida aos diferentes quadros. Mas há também uma equipa que trabalha longe dos olhos do público.
É preciso estar preparado para tudo. Um carro pode sofrer uma avaria, uma peça pode soltar-se, um trator pode deixar de funcionar ou uma estrutura pode precisar de ser reforçada. Existem equipas de emergência posicionadas em pontos estratégicos e até a distribuição de água pelos participantes é previamente planeada. “Não é nada ao acaso. Está tudo estudado para que funcione da melhor forma possível”, salienta Hermenegildo.
Hermenegildo está ligado às festas há 43 anos e assume responsabilidades na organização do cortejo há uma década. Diz que o trabalho com grupos folclóricos, freguesias e público é, na maioria das vezes, “gratificante”. O problema surge quando alguém procura destacar-se acima dos outros, sustentando que “quando as pessoas vêm a pensar que são o centro do mundo e que são a mais importante e que têm que ter um lugar de destaque, aí já é complicado lidar”.
“Temos que dar o nosso melhor. Isso é diferente, mas temos que saber que fazemos parte de um conjunto, que fazemos parte de um todo”, acrescenta.
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