Há regressos que não são apenas geográficos. A investigadora Ana Isabel Lopes regressou à sua antiga escola primária, a EB1 de Chafé, em Viana do Castelo, no âmbito do programa Cientista Regressa à Escola, promovido pela Native Scientists com apoio da Portugal Inovação Social.
A iniciativa incluiu ainda uma segunda sessão na EB1 do Cabedelo, no mesmo dia, levando o mesmo formato de oficina científica a duas turmas do concelho.
O programa integra uma rede nacional que leva cientistas às escolas do 1.º ciclo onde estudaram, com o objetivo de “promover literacia científica, aproximar crianças da investigação e reduzir desigualdades no acesso precoce à ciência”.
As sessões centraram-se nas dinâmicas de transformação da linha de costa no litoral noroeste português, com enfoque no desaparecimento de antigas paróquias medievais como São João de Ester (Chafé) e Santa Maria das Areias (Darque), associadas ao avanço de areias e a alterações ambientais ao longo do tempo.
“Hoje é o dia de regressar aqui à escola… a ideia do projeto é o cientista regressar à sua escola primária e que cada um dos miúdos também tenha contacto com a ciência”, explicou Ana Isabel Lopes, acrescentando que trabalharam sobre “o que são dunas, o que é a história local… construir uma duna e perceber como é que a paisagem de Chafé e Darque se foram alterando”.
O Cientista Regressa à Escola assenta num modelo de “educação circular”, em que cientistas regressam às suas antigas escolas para dinamizar oficinas com alunos do 4.º ano.
Segundo a Native Scientists, o programa procura “ampliar horizontes educativos, combater estereótipos associados à ciência e reduzir assimetrias no acesso ao conhecimento científico”.
As sessões são de natureza prática, com recurso a atividades experimentais e participação ativa dos alunos.
Nuno Vieira da Almeida, responsável de desenvolvimento e marketing da organização, sublinha a desigualdade no acesso à ciência como problema central. “Há crianças que têm contacto muito fácil com cientistas e outras cujo único contacto com a ciência acontece mais tarde, muitas vezes já na universidade”, afirmou, acrescentando: “O projeto tenta responder a esse problema social através do regresso de um cientista à sua escola básica, com uma oficina prática e próxima das crianças.”
O programa está, atualmente, implementado em cerca de 80 concelhos, incluindo regiões autónomas, e deverá abranger “mais de 6 mil crianças” do 4.º ano no presente ano letivo.
De acordo com Nuno Vieira da Almeida, “cerca de metade das crianças contacta com um cientista pela primeira vez através destas sessões, valor que em alguns territórios ultrapassa os 90%”.
A ambição do projeto passa por “garantir que todas as crianças em Portugal tenham contacto com um cientista antes de terminarem o 1.º ciclo do ensino básico”.
O programa é financiado no âmbito das Parcerias para a Inovação Social, integradas no Portugal 2030 e geridas pela Portugal Inovação Social.
Helena Loureiro, representante da entidade, descreve o modelo como orientado para impacto mensurável e transformação social através de metodologias inovadoras.
O financiamento cobre “cerca de 80% do investimento”, sendo o restante assegurado através de parcerias com entidades públicas e privadas.
Na EB1 de Chafé, a professora Arminda Casanova evidenciou a relevância pedagógica da iniciativa. “Estes projetos enriquecem os alunos a nível cultural e fazem uma abertura muito grande para seguirem exemplos de pessoas que passaram por aqui e chegaram a percursos científicos”, afirmou.
Segundo a docente, os alunos reagiram com “entusiasmo” e “forte” motivação.
Mais do que uma ação pontual, o projeto inscreve-se numa tentativa de aproximar ciência e território, colocando investigadores em contacto direto com comunidades escolares onde, em muitos casos, iniciaram o seu percurso.
No caso de Ana Isabel Lopes, essa ligação é também temática: a sua investigação cruza-se com a própria geografia local, ao estudar como a paisagem costeira se transforma ao longo do tempo e como essas mudanças moldaram comunidades como Chafé e Darque.
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