A chieira não é negócio. É identidade.

Fernando Martins
19 Mai. 2026 4 mins

Com o aproximar da época da Festas d`Agonia e o tão “desejado” desfile da Mordomia, gera-se uma euforia (justificada) das mulheres de Viana do Castelo e, como, infelizmente, já tem sido habitual, o processo de inscrição no desfile e a limitação do número de participantes resulta em muitas discussões e desilusões, que devido à elevada procura, esgota as vagas disponíveis em muito pouco tempo.

Para além das regras básicas de participação (entenda-se, uso de traje típico adequado e as regras de bem trajar e ourar), desta vez a organização adicionou mais restrições, nomeadamente a da definição de faixa etária para participação, no entanto, o problema vai muito além da idade.

O que muitas mulheres sentiram foi que a essência da mordomia está a ser substituída por uma lógica de seleção, exclusividade e controlo, como se a participação deixasse de ser expressão de pertença cultural para passar a funcionar como acesso condicionado a um espetáculo turístico. E isso fere profundamente quem vive esta tradição durante todo o ano.

Há tradições que não se explicam apenas com regulamentos, inscrições online ou limites de idade. Sentem-se. Vivem-se. Herdam-se. A chieira é uma delas.

É o brilho dos cordões herdados da avó. É o lenço cuidadosamente colocado. É o ouro ao peito, não para mostrar riqueza, mas para honrar os antepassados. É o respeito pelo bem trajar, pelo saber usar cada peça, pelo rigor etnográfico e pela dignidade de representar a nossa terra.

A chieira nasce do povo, das mulheres que trabalharam no campo, no mar, nas feiras e nas casas, mas que, nas romarias, vestiam o melhor que tinham, porque aquele momento era sagrado. Era festa, fé e devoção.

Transformar isso num filtro burocrático é esquecer a alma da tradição.

A Mordomia não existe por causa de plataformas digitais, números limite ou campanhas promocionais. Existe porque milhares de mulheres mantiveram viva esta cultura durante décadas, mulheres que passam o ano inteiro a restaurar peças antigas, a aprender como usar corretamente o traje, a investir dinheiro próprio no ouro e nos tecidos, a ensinar filhas e netas, a participar em ranchos folcloricos, associações e romarias.

Muitas delas começaram a vestir traje ainda crianças, outras regressaram às tradições mais tarde, depois de anos emigradas, mas independentemente da idade todas carregam o mesmo amor à terra.

A tradição não envelhece com a idade das mulheres. Pelo contrário, são precisamente as mulheres mais velhas que muitas vezes guardam o conhecimento mais autêntico sobre o bem trajar e o bem ourar. São elas que sabem distinguir um traje de festa de um traje de dó. São elas que conhecem o significado das peças, dos lenços, dos aventais, dos corações. Excluir essas mulheres é empobrecer culturalmente a própria Mordomia.

Não há dúvidas de que um desfile com milhares de participantes exige organização e regras. A própria VianaFestas justificou os limites com razões logísticas, de segurança e fluidez do evento, mas, quando a preocupação com a imagem, com os números e com a gestão se sobrepõe às pessoas que fizeram crescer a tradição, algo se perde pelo caminho.

Porque a Mordomia não  se pode transformar num palco onde apenas entram os corpos “adequados”, com as idades “certas” ou com os perfis mais fotogénicos. A cultura popular não sobrevive quando é tratada como marca. Sobrevive quando continua a pertencer ao povo. A tradição é de quem a vive.

As Festas d`Agonia são admiradas em todo o país e além-fronteiras, precisamente porque têm verdade e autenticidade. Não nasceram para turista ver, mas sim da devoção, do espírito de comunidade e da identidade minhota.

Por tudo isto, chieira não pode ser reduzida a marketing. Ela vive no brilho emocionado de quem veste ouro da família, no nervosismo antes do desfile, na emoção de representar uma freguesia e na neta e na avó que caminham lado a lado, ambas orgulhosas da sua história.

Se a Mordomia perder isso, perde muito mais do que participantes.

Perde (a) alma.

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