Polémica em Arcos evidencia persistência do racismo no desporto português

O jogo entre o Clube de Rugby de Arcos de Valdevez (CRAV) e o Academia de Rugby Club de Setúbal, disputado no dia 21 de fevereiro, terminou em polémica, com acusações mútuas de racismo e agressões que têm mobilizado as instâncias disciplinares do desporto em Portugal.

Micaela Barbosa
23 Fev. 2026 3 mins
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CRAV Arcos de Valdevez

O CR Setúbal denunciou que o árbitro de linha da partida, Daniel Sebastián, foi alvo de insultos racistas “constantes” por adeptos do CRAV, incluindo a repetida utilização do termo “macaco”. 

O clube sadino relata ainda uma invasão de campo e agressões ao presidente e treinador João Terlim, que “tentava apaziguar a situação”. 

A direção de Setúbal afirma que o árbitro principal impediu o registo destes incidentes no boletim de jogo e reuniu provas de vídeo para enviar à Federação Portuguesa de Rugby (FPR) e à Autoridade para a Prevenção e Combate à Violência no Desporto (APCVD).

Em resposta, o CRAV negou as acusações, classificando-as como “deturpações e mentiras”, e anunciou a apresentação de queixa por difamação. 

O clube minhoto sublinha que, “em 45 anos de existência, nunca esteve associado a atos racistas”, e que a comunidade do clube inclui elementos de várias proveniências e etnias. 

O CRAV cortou relações institucionais com o CR Setúbal e manifestou “disponibilidade” para “colaborar com qualquer averiguação oficial”.

Os episódios em Arcos de Valdevez ocorrem num contexto nacional de combate ao racismo no desporto. Em 2025, a APCVD instaurou 36 processos por racismo ou xenofobia em eventos desportivos. Dos casos registados, 18 permanecem em fase de instrução, seis foram arquivados por falta de indícios ou impossibilidade de identificar os infratores, e três resultaram em decisões condenatórias, com coimas e interdições de acesso a recintos desportivos. Nove processos foram encaminhados para o Ministério Público por existirem indícios de crime.

Entre os episódios recentes, destacam-se o clássico de basquetebol Sporting-FC Porto, em que um adepto foi proibido de entrar em recintos até conclusão do processo; e o jogo da Liga dos Campeões Benfica-Real Madrid, em que o avançado brasileiro Vinícius Júnior denunciou um alegado insulto racista do argentino Prestianni, levando à interrupção temporária da partida e à instauração de um processo de contraordenação pela APCVD, além de investigação da UEFA.

A APCVD alerta que a sua intervenção “limita-se à vertente contraordenacional”, enquanto a sanção disciplinar de atletas ou treinadores compete às federações e ligas. 

Os especialistas defendem que tolerância zero, fiscalização rigorosa e educação preventiva são “essenciais” para “combater comportamentos racistas em todas as modalidades”.

O caso de Arcos de Valdevez evidencia como o racismo pode surgir em modalidades e escalões diferentes e como os relatos de vítimas e as negações das partes dificultam a investigação. 

Tal como no futebol e no basquetebol, é fundamental garantir processos transparentes e rápidos, protegendo árbitros, atletas e a integridade do desporto em Portugal.

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