Falar de cultura celta e das máscaras do Entrudo não é falar de folclore pitoresco para consumo turístico ocasional. É falar de estruturas profundas de identidade europeia que atravessaram séculos de cristianização, centralização política e homogeneização cultural. É falar de comunidades que, em muitos casos, sobreviveram à margem dos grandes centros de decisão e que encontraram na ritualização do inverno, na inversão simbólica da ordem social e no uso da máscara uma forma de preservar coesão, memória e sentido coletivo. A questão que importa hoje não é se estas tradições são “bonitas” ou “curiosas”; é se podem, realisticamente, desempenhar um papel no combate à desertificação de vastas zonas do interior português.
O universo das máscaras invernais europeias é vasto e transversal. Dos Caretos de Podence e Lazarim, das máscaras de cortiça de Góis, passando ao triângulo do “Entroido” Galego, uma celebração ancestral, focada em máscaras rurais e personagens imponentes como os Cigarróns de Verín, Peliqueiros de Laza e Boteiros de Viana do Bolo, chegamos a recantos nos antípodas como na Croácia com os Zvončari, à Hungria com o Busójárás, à Bulgária com os seus festivais de Surva em Pernik e de Elin Pelin, passando pelo célebre Binche na Bélgica, encontramos um padrão comum: figuras mascaradas, frequentemente associadas à expulsão do inverno, à fertilidade e à renovação do ciclo agrícola. Muitas destas tradições foram reconhecidas como património cultural imaterial pela UNESCO, não por exotismo, mas por representarem práticas vivas transmitidas entre gerações, numa contínua persistência destas manifestações, sugerindo que não estamos perante simples encenações turísticas, mas diante de mecanismos culturais com raízes profundas nas sociedades agrárias europeias, frequentemente associadas a substratos pré-cristãos, incluindo heranças célticas, embora a ligação direta deva ser tratada com rigor histórico e não com romantismo ideológico.
Em Portugal, o Entrudo tradicional do nordeste transmontano insere-se claramente nesse continuum europeu. A chamada máscara ibérica não é um fenómeno isolado; é parte de um sistema simbólico partilhado que se estende pela Península Ibérica e dialoga com tradições centro-europeias. O caso paradigmático são os Caretos de Podence, cuja festa de inverno foi inscrita em 2019 na lista representativa do património cultural imaterial da humanidade da UNESCO. Esse reconhecimento internacional não criou a tradição; limitou-se a reconhecer formalmente algo que já era vivido localmente como elemento estruturante de identidade comunitária. O Carnaval de Podence, celebrado na freguesia do concelho de Macedo de Cavaleiros, em Trás-os-Montes, tornou-se um símbolo nacional precisamente porque conseguiu manter autenticidade ritual ao mesmo tempo que se abriu ao exterior.
Mas é aqui que surge a questão avançada no título desta publicação. A valorização patrimonial resolve a desertificação? A resposta honesta é: por si só, não. O interior português continua a perder população, a envelhecer rapidamente e a enfrentar dificuldades estruturais em termos de emprego, serviços públicos e infraestruturas. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, as regiões do interior apresentam densidades populacionais muito inferiores à média nacional e saldos migratórios negativos persistentes. Transformar uma tradição num evento mediático anual não altera automaticamente estas tendências estruturais.
O que as tradições como a dos Caretos fazem é criar um ativo simbólico e económico. Durante o período do Carnaval, Podence recebe milhares de visitantes, gera receitas em alojamento, restauração e comércio local e projeta internacionalmente uma imagem positiva da região. Esse impacto é real e mensurável. No entanto, é também sazonal e concentrado. Se a estratégia de desenvolvimento se limitar a maximizar o fluxo turístico num fim de semana por ano, estaremos apenas a produzir picos de atividade num território que permanece estruturalmente frágil no resto do calendário.
Há ainda um risco mais subtil: a transformação da tradição em produto. Quando a lógica económica passa a dominar a lógica comunitária, o ritual tende a ser adaptado ao olhar do visitante, simplificado, encenado, por vezes descontextualizado. O que era expressão espontânea de identidade pode converter-se em espetáculo coreografado. Este fenómeno não é exclusivo de Portugal; é amplamente estudado na literatura sobre turismo cultural. O desafio está em equilibrar abertura e preservação, mercado e comunidade, visibilidade e autenticidade.
Apesar destes riscos, descartar o potencial destas tradições seria um erro estratégico. A identidade cultural é um recurso económico indireto, mas poderoso. Ela gera capital social, reforça o sentimento de pertença e pode funcionar como âncora para projetos complementares: museus interpretativos, centros de investigação etnográfica, residências artísticas, produção artesanal certificada, circuitos turísticos integrados, festivais temáticos fora da época alta. Quando articulada com políticas públicas inteligentes — investimento em conectividade digital, incentivos à fixação de jovens empreendedores, apoio à economia criativa — a cultura pode tornar-se parte de um ecossistema de desenvolvimento e não apenas um evento isolado.
O recrudescer dos aspetos culturais identitários regionais que hoje se observa na Europa não é um fenómeno inocente. Surge, em muitos casos, como reação à globalização cultural e à perceção de perda de especificidade local. Pode assumir formas regressivas e exclusivistas, mas pode também assumir formas construtivas, centradas na valorização da diversidade cultural. A diferença está na orientação política e social que se dá a esse movimento. No caso português, a aposta nas tradições do Entrudo pode ser um instrumento de coesão e desenvolvimento se for enquadrada numa visão inclusiva e estratégica.
O exemplo dos Caretos demonstra que uma pequena comunidade rural pode ganhar projeção internacional sem abdicar das suas raízes. O reconhecimento da UNESCO trouxe visibilidade global, atraindo visitantes e investigadores, reforçando o orgulho local e consolidando a tradição como marca identitária da região. Contudo, a pergunta que importa é outra: essa visibilidade está a ser convertida em oportunidades permanentes para os residentes? Está a gerar emprego qualificado, a atrair novos habitantes, a estimular investimento produtivo? Ou está apenas a reforçar um modelo de economia episódica e dependente de fluxos externos?
Se queremos que a cultura seja instrumento de combate à desertificação, temos de ir além da celebração simbólica. É necessário profissionalizar a gestão cultural, integrar as tradições em redes regionais, criar narrativas coerentes que liguem património, natureza, gastronomia e inovação. É preciso medir impacto, avaliar resultados e ajustar estratégias. O interior não precisa apenas de turistas; precisa de residentes, empresas, escolas, serviços de saúde, transportes funcionais. A cultura pode ser catalisadora, mas não substitui políticas estruturais.
Em última análise, as máscaras do Entrudo são mais do que objetos festivos; são metáforas. Representam a capacidade de uma comunidade assumir múltiplas identidades, adaptar-se ao tempo e transformar adversidade em expressão coletiva. Se forem tratadas apenas como espetáculo, perderão força. Se forem integradas numa estratégia séria de desenvolvimento territorial, podem contribuir para redefinir o futuro de regiões que durante décadas foram vistas como periferia.
A desertificação não se combate com nostalgia, mas também não se combate ignorando o que torna cada território singular. Entre o folclore vazio e o planeamento tecnocrático existe um caminho intermédio: usar a identidade como ativo estratégico, sem a mercantilizar até à exaustão. Os Caretos de Podence mostram que é possível colocar uma aldeia no mapa do mundo. A responsabilidade agora é garantir que essa visibilidade não seja apenas efémera, mas parte de uma transformação estrutural que devolva vida — permanente, não apenas carnavalesca — ao interior português.
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