A memória na Era Digital

Nuno de Matos
21 Out. 2026 3 mins
Nuno Matos

Não posso deixar de partilhar com o leitor uma entrevista que, nesta época de Inteligência Artificial, me deixou a pensar. A conversa, que se pode ler na revista online “Commonweal Magazine” – https://www.commonwealmagazine.org/vint-cerf-spadaro-interview-digital-memory -, é uma profunda reflexão sobre a condição humana face à tecnologia, onde o Padre Antonio Spadaro (subsecretário do Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé) e Vinton Gray Cerf (conhecido por Vint Cerf, é considerado um dos “pais” da Internet) alertam para o risco iminente de uma “Idade das Trevas digital”. Embora a humanidade produza hoje volumes colossais de informação, a rápida obsolescência de software e hardware ameaça tornar esses registos completamente inacessíveis no futuro. Para evitar um “muro de silêncio”, os autores defendem que preservar a informação não basta, sendo essencial, imperativo, até, salvaguardar também o contexto tecnológico (os sistemas e programas) que os torna interpretáveis.

Diante da impossibilidade económica e técnica de armazenar tudo o que é gerado, o diálogo foca-se na urgência do definir o critério do que vale a pena ser guardado e lembrado e o que se se pode “apagar”. Porque “a memória não é um armazém neutro; é uma escolha civilizacional”, a escolha do que merece ser lembrado não pode ser delegada cegamente em algoritmos ou deixada ao sabor dos interesses de mercado. Pelo contrário, a preservação da memória coletiva exige metadados (informações que estabelecem a proveniência e a integridade do conteúdo) rigorosos e uma responsabilidade ética partilhada entre universidades, bibliotecas, arquivos e instituições duradoiras, como a própria Igreja Católica. Para garantir a soberania das narrativas humanas, a solução passa pela criação de um ecossistema de arquivos, interoperável e movido por uma “intencionalidade benevolente” ao serviço da sociedade.

O impacto da Inteligência Artificial na gestão do conhecimento é outro dos pontos centrais da entrevista. Se, por um lado, a IA se apresenta como uma ferramenta poderosa capaz de ler, resumir e até apoiar a busca pela verdade e pela sabedoria, por outro, carece de fiabilidade absoluta. Cerf sustenta que a interpretação autêntica deve permanecer estritamente humana. A tecnologia pode e deve servir de suporte, mas a palavra final sobre o significado profundo dos textos e dos acontecimentos históricos cabe à sociedade civil e às comunidades científicas e culturais.

Por fim, a entrevista desconstrói a ideia de que a tecnologia digital é intrinsecamente destrutiva para os valores humanistas. A digitalização é encarada como uma metamorfose histórica, comparável à transição da oralidade para a escrita. Ao permitir novas formas de pesquisar, simular processos naturais e reconstruir a evolução de textos antigos, as ferramentas digitais podem, na verdade, aumentar a nossa compreensão do mundo, abrindo novos caminhos para vivenciar tanto a memória coletiva como o próprio sentido de transcendência. Podem, mesmo, despertar o desejo e ajudar-nos na nossa busca pela verdade, até mesmo pela sabedoria.

Agora que leram este pequeno resumo, leiam a conversa, nem é assim tão grande e vale bem a pena.

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