Mais do que selos, pedaços da História que resistem ao tempo. Viana do Castelo acolhe XXX Exposição Nacional de Filatelia

A filatelia, entendida como o estudo e o colecionismo de selos postais e de materiais relacionados, permite construir coleções de caráter geral ou temático, preservando, através destas pequenas peças, fragmentos da História. Descritos como uma representação da memória e do documento histórico, os selos assumem um papel que vai muito além da sua função postal, constituindo verdadeiros testemunhos de épocas, acontecimentos e identidades culturais. Afinal, como sublinha José Pereira, presidente da Associação de Filatelia e Colecionismo de Vale do Neiva, sediada em Mujães, no concelho de Viana do Castelo, um selo “não é apenas um bocadinho de papel”.

Catarina Faria
12 Out. 2026 4 mins

Para o responsável, cada selo encerra uma narrativa própria, uma vez que “consegue contar uma história enorme”, ao apresentar uma temática e contribuir para “manter viva uma parte da História” que ficou registada de alguma forma. É precisamente essa capacidade de preservar a memória que faz da filatelia um universo em que a dimensão material de cada peça se cruza com o seu valor histórico e cultural.

As coleções assumem, por isso, um papel central nesta atividade, reunindo milhares de selos em torno de um determinado tema, permitindo construir uma narrativa que atravessa diferentes épocas e acontecimentos. “Não se trata apenas de expor selos, mas de construir um percurso que permite acompanhar épocas, séculos e acontecimentos históricos através das peças filatélicas”, destaca José Pereira.

“A filatelia, além de ser uma área educativa, é culturalmente muito rica”, afirma o presidente, explicando que as emissões lançadas ao longo dos anos permitem acompanhar a evolução histórica do país. Associados a acontecimentos, comemorações e diferentes temáticas, os selos ajudam a contar “a nossa história, os nossos costumes e a nossa identidade”, constituindo pequenos registos daquilo que marcou a sociedade portuguesa ao longo do tempo.

A pesquisa e a organização são, segundo o responsável, fundamentais para quem se dedica a esta atividade. A construção de uma coleção exige mais que a simples reunião de peças: pressupõe investigação, seleção e uma estrutura capaz de estabelecer ligações entre os elementos apresentados. “A filatelia obriga à pesquisa e à organização, para se conseguir construir uma coleção. Não é algo que se faça ao acaso: tem de existir um princípio, um meio e um fim, assim como um fio condutor que nos guie ao longo de todo o trabalho”, explica o dirigente.

É, também, nesta dimensão educativa que a associação identifica uma oportunidade de aproximação às gerações mais jovens. De acordo com José Pereira, a experiência dos núcleos filatélicos escolares demonstrou os benefícios desta prática no desenvolvimento de competências de organização e investigação. “Durante mais de uma década, ficou demonstrado que os alunos que participavam no núcleo filatélico da escola eram reconhecidos por muitos professores como sendo mais organizados que os restantes”, recorda, salientando que a filatelia exige precisamente a capacidade de pesquisar, organizar informação e desenvolver um trabalho com lógica e coerência.

Contudo, conquistar novos públicos continua a ser um dos desafios desta área. “Sabemos que vai ser difícil e que, para os jovens de hoje, é mais complicado começar a colecionar selos, porque têm muitas outras possibilidades e interesses”, admite o responsável. As novas tecnologias e a globalização têm contribuído para esta mudança de hábitos, direcionando os mais jovens para outras formas de ocupação e comunicação. 

A transformação dos hábitos de comunicação representa, igualmente, um desafio para a preservação do selo postal. Apesar do trabalho desenvolvido pelas associações e entidades ligadas ao colecionismo, a utilização física da correspondência tem vindo a perder espaço perante as alternativas digitais. “Cada vez mais, as emissões são comerciais e menos destinadas à utilização física, porque o mundo digital permite enviar mensagens e documentos de forma muito mais rápida, barata e simples”, observa José Pereira. Perante esta realidade, a associação procura manter viva a tradição do correio físico, privilegiando, nomeadamente, o envio de correspondência em envelopes com selo.

É neste contexto de valorização da memória histórica e de promoção do colecionismo, que Viana do Castelo recebe, a 13 de outubro, a XXX Exposição Nacional de Filatelia, que coincide com o 30º aniversário da Associação de Filatelia e Colecionismo de Vale do Neiva. A iniciativa terá lugar no Centro Cultural de Viana do Castelo e pretende dar a conhecer ao público a diversidade das coleções e a riqueza histórica das peças expostas.

“Gostávamos que os visitantes saíssem satisfeitos com aquilo que encontraram, com as participações e com o acolhimento que lhes foi dado”, afirma o presidente. Para a organização, é igualmente importante que os participantes levem consigo boas recordações da cidade e dos prémios associados à identidade vianense, ficando com vontade de regressar.

A exposição contará com 154 quadros expositores, correspondentes a mais de 300 faces de exposição, e 60 coleções em competição, distribuídas pelas diferentes classes filatélicas.

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