Há projetos que não cabem bem na palavra “inauguração”, nem na ideia clássica de “primeiro aniversário”. O caso do espaço criado por Maria Maciel, em Vila Nova de Anha, concelho de Viana do Castelo, é um deles. O edifício começou por nascer como coworking inspirado na experiência da jovem na Finlândia, mas foi crescendo em várias direções, até se transformar num espaço híbrido entre trabalho remoto, bem-estar e alojamento local. Só agora, com essa componente finalmente concluída, o projeto ganha uma forma mais próxima daquela que imaginava, ainda que Maria prefira descrevê-lo como “em construção”.
O nome escolhido, Onnea, palavra finlandesa para “sorte”, traduz uma ideia de trabalho mais equilibrado, menos centrado apenas na produtividade e mais ligado à autonomia, à saúde e à qualidade de vida.
Maria descreve um projeto que nasceu dentro da família e que acabou por se tornar uma espécie de laboratório de trabalho contemporâneo. “Isto tudo surge por causa deles. Eles têm a ideia de comprar o prédio”, conta, referindo-se aos avós, figuras centrais tanto na origem como no funcionamento diário do espaço. “Sou eu e os meus avós. Tudo o que é limpezas, fazer camas nos alojamentos e assim, sou eu e a minha avó”, contou.
O espaço ocupa um antigo prédio habitacional recuperado quase inteiramente pela família, num processo contínuo e improvisado. “Nunca tivemos arquitetos ou engenheiros aqui a ajudar. Basicamente, eu tinha as ideias e o meu avô arranjava a forma de fazer, confidenciou. Foi assim que o edifício foi sendo transformado, aos poucos, em salas privadas, áreas partilhadas, espaços de formação e zonas dedicadas a atividades de bem-estar.
Situado junto ao Caminho de Santiago, o espaço foi pensado, inicialmente, como coworking e espaço multifuncional. Mas a realidade, como tantas vezes acontece nestes projetos híbridos, acabou por alterar o plano inicial. Peregrinos, nómadas digitais, empresas e formandos, começaram a cruzar-se no mesmo lugar.
A grande viragem surge agora, com o alojamento local, que só este ano entrou em funcionamento pleno. E é aqui que o projeto muda de escala, mas também de natureza. “O alojamento, só este ano é que ficou completamente concluído”, admite, sublinhando que, até agora, o espaço viveu num estado intermédio, entre obra e utilização.
Mais que um negócio de alojamento, o espaço assume-se como um ecossistema de trabalho e bem-estar. “As pessoas procuram esta vertente mais social, ou seja, não é só trabalho, também saúde e bem-estar”, explica Maria, que insiste na ideia de equilíbrio como eixo central do projeto.
Esse equilíbrio não é apenas discursivo. Está incorporado na programação do espaço. Há sessões de pilates ao final do dia, incluindo práticas aéreas, e uma lógica de convivência entre pessoas de áreas totalmente diferentes. “Nas pausas de trabalho, não é preciso estar a falar do trabalho que estavam a fazer, porque tem aqui pessoas de outras áreas completamente distintas”, acrescenta.
O projeto, no entanto, não nasceu de uma visão empresarial tradicional. É, também, uma resposta pessoal à instabilidade do trabalho criativo. “O meu trabalho era um pouco imprevisível; estava sempre a depender de projetos”, explica. Daí, a ideia inicial era criar um espaço que pudesse funcionar como base profissional, mesmo em períodos de incerteza.
Ao longo do tempo, o espaço também se foi tornando, inesperadamente, um ponto de passagem para perfis muito diversos, incluindo pessoas em transição profissional. “Dei por mim a ajudar amigos e amigos de amigos a empreenderem”, diz Maria, reconhecendo que o coworking acabou por assumir um papel quase de incubadora informal.
A ideia inicial passava por criar uma comunidade baseada na partilha, na autonomia e em responsabilidade individual. Um ano depois, Maria percebe que essa visão também esbarra em hábitos de trabalho muito diferentes daqueles que conheceu no norte da Europa. “Aqui, sinto muitas vezes as pessoas a dizer-me: ‘arranjas-me os clientes, marcas a hora, marcas tudo, e eu venho cá trabalhar’.” Para ela, isso contrasta com a lógica do espaço. “Não quero que isto seja uma clínica… não é esse o propósito”, defende.
Essa resistência à autonomia revela, segundo a própria, um desafio mais amplo. Inspirado numa visão nórdica, até no nome do projeto, o espaço tenta promover independência e responsabilidade individual. “Assumir as consequências das nossas escolhas, das nossas decisões”, refere.
O choque com essa cultura de autonomia é, talvez, uma das descobertas mais relevantes deste primeiro ciclo. “Em Portugal, temos mais dificuldade em assumir essa responsabilidade”, resume.
Apesar disso, o balanço é de adaptação constante. O alojamento, por exemplo, nasceu também da necessidade prática dos utilizadores, e foi sendo ajustado com base em feedback real. Um dos aspetos mais valorizados, segundo Maria, é a autonomia total do check-in. “As pessoas podem fazer o check-in à hora que elas quiserem, porque nós damos os códigos de acesso”, especificou.
No fundo, o espaço funciona como um organismo que responde ao uso. Eventos, formações, retiros, trabalho remoto e estadias curtas coexistem, sem uma hierarquia fixa. E isso impede, também, uma leitura linear do seu impacte ou dimensão. “Não tenho mesmo noção nenhuma”, admite, quando questionada sobre quantas pessoas já passaram pelo espaço.
Por isso, este chamado “primeiro ano” não é celebrado como marco fechado. “Eu considero este ano um ano zero e não o ano oficial do espaço em si”, admite.
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