Entre as muitas frases que se ouvem quando se fala do sacramento da confissão, talvez uma das mais frequentes seja esta: “não tenho pecados.” É uma afirmação que merece reflexão, sobretudo quando é dita por pessoas crentes, que participam na vida da Igreja, mas que deixaram de se confessar por considerarem não ter pecados.
Pessoalmente, tenho alguma dificuldade em aceitar esta expressão. Não porque acredite que as pessoas a pronunciam de má fé mas porque acho que traduz uma visão muito limitada do que é o pecado. Se o pecado fosse só cometer crimes, enganar os outros ou praticar atos gravemente condenáveis, talvez grande parte de nós pudéssemos afirmar o mesmo. Mas considero que a vida cristã nos convida a olhar mais fundo.
Quantas vezes falhamos na paciência, na caridade, no perdão ou na atenção aos que mais precisam? Quantas vezes nos deixamos dominar pelo orgulho, pela indiferença ou pela crítica fácil? Quantas oportunidades perdemos de fazer o bem?
O pecado não está apenas no mal que fazemos, mas também no bem que deixamos por fazer.
Reconheço que falar sobre isto é fácil. Viver a experiência da confissão é outra coisa. Houve uma fase da minha vida em que também não me conseguia confessar. Não porque não acreditasse no sacramento, mas porque a confissão exige algo que nem sempre é confortável: humildade. Exige reconhecer que não somos perfeitos e que precisamos da misericórdia de Deus.
Durante muitos anos confessei-me ao mesmo pároco. Conhecia-me, acompanhava o meu percurso religioso e transmitia-me confiança. Quando faleceu, percebi que a dificuldade não estava apenas em confessar os pecados; estava em fazê-lo diante de alguém novo. Associar esse gesto tão íntimo e tão exigente a outro sacerdote foi um caminho lento.
Foi necessário vencer resistências interiores e compreender que, embora o confessor mudasse, a presença misericordiosa de Deus permanecia a mesma.
Talvez seja precisamente aqui que reside o maior desafio. A confissão confronta-nos com a verdade sobre nós próprios. E a verdade é que nenhum de nós é isento de fragilidades. Dizer “não tenho pecados” pode parecer uma afirmação de tranquilidade, mas corre o risco de fechar a porta à conversão. Pelo contrário, reconhecer humildemente as nossas limitações não nos diminui; aproxima-nos de Deus e torna-nos mais conscientes da necessidade da Sua graça.
No fundo, talvez até nem seja a perfeição que nos aproxima de Deus, mas a humildade de quem sabe que ainda tem caminho para percorrer.
A confissão não começa quando encontramos muitos pecados para enumerar, começa quando encontramos humildade para reconhecer que apesar de todos os nossos esforços e boas intenções não somos sempre perfeitos, somos pecadores.
Reforço que, na minha opinião, pecar não é só quando se faz o mal, é também sempre que se desperdiça a oportunidade de fazer o bem!
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