Grandes Façanhas Ibéricas

João Azevedo
26 Mai. 2026 7 mins

Das caravelas ao ibero moderno, Portugal e Espanha partilham um destino mais profundo do que as “fronteiras” deixam numa primeira análise perceber. Mas quem se atreve ainda a dizê-lo?

Houve um tempo em que o destino do mundo era traçado nesta faixa de terra entre o Atlântico e o Mediterrâneo. Nenhuma outra civilização ocidental abriu tantas rotas, fundou tantos “novos mundos”, transplantou tantas línguas e crenças para além dos seus próprios horizontes. A Península Ibérica foi muito mais do que uma peça no tabuleiro da História: durante vários séculos, foi o próprio tabuleiro de uma relação intrincada de relações políticas e económicas, num jogo geopolítico vasto e pleno de estratégia e relações. E, no entanto, a memória desta grandeza partilhada tem sido tratada com uma estranha timidez, como se o orgulho fosse suspeito, como se a identidade fosse perigosa.

É neste contexto de amnésia cultural seletiva que emerge, com propósito declarado, a obra coletiva coordenada por Juan Carlos Reyes Vevia: Grandes Hazañas de los Españoles. Publicada pela editora Laus Hispaniae, o volume propõe-se recuperar, ordenar e projetar o legado histórico de uma “Hispânia” não como monumento estático, mas como matriz ativa de identidade. Escrita a várias vozes, desde historiadores a ensaístas de diversas sensibilidades, ideologias e nacionalidades, a obra bilingue, percorre episódios de empresa individual e de gesta coletiva para compor o que os próprios autores descrevem como um mosaico plural da Hispanidade. Não há uma voz única nem uma ideologia dominante: há matizes, contrastes, dentro de um espírito comum, sinal de que o projeto identitário não se fecha nas suas próprias condicionantes.

O que emerge desta obra é uma tese implícita, mas poderosa: que a grandeza dos Ibéricos, na sua capacidade de empreender, de criar, de se misturar com outros povos sem perder a identidade, de perseverar quando tudo parecia contra, não pertence apenas ao passado. É acima de tudo, uma promessa de futuro.

Estamos perante uma intervenção cultural consciente, dirigida contra a fragmentação e o esquecimento que corroem a consciência histórica coletiva. A história da Península surge hoje frequentemente subordinada a narrativas externas que privilegiam a culpa sobre a conquista, a sombra sobre a luz. A resposta de Grandes Hazañas de los Españoles não é a negação, mas a restituição: devolver à memória coletiva os feitos que a tornaram possível.

Seria, porém, justo e intelectualmente honesto limitar este inventário de grandeza a um só lado da fronteira? As façanhas ibéricas são, antes de mais, um destino a dois. Foi sob a bandeira de Castela que Cristóvão Colón tocou o Novo Mundo em 1492. Mas foi sob a bandeira portuguesa que Vasco da Gama abriu, em 1498, a rota marítima para a Índia, ligando o Atlântico ao Índico numa gesta sem paralelo. E foi ainda Fernão de Magalhães, português de nascimento, ao serviço da coroa espanhola, quem completou, pela primeira vez na história da humanidade, a circum-navegação do globo. A própria figura de Magalhães condensa, melhor do que qualquer argumento, a impossibilidade de separar estes dois destinos. Durante os sessenta anos da União Ibérica (1580–1640), Portugal e Espanha partilharam não apenas uma coroa, mas um espaço geopolítico de dimensões planetárias. Esta experiência comum deixou marcas que os séculos de separação nunca apagaram completamente. A língua, a fé, a arquitetura, a música… tudo denuncia uma mesma matriz cultural, por mais que as histórias nacionais insistam em salientar as diferenças.

A consciência desta proximidade profunda não passou despercebida à história das ideias.

Em meados do século XIX, surgiu um movimento que ousou torná-la uma questão identitária: o Iberismo. O seu fundador intelectual, o diplomata e intelectual espanhol Sinibaldo de Mas, considerado o pai do iberismo, publicou em 1851 «La Iberia: Memoria sobre las Ventajas de la Unión de Portugal y España», lançando as bases teóricas de uma proposta que viria a provocar, durante décadas, tanto entusiasmo como rejeição. O movimento foi alimentado por intelectuais e políticos de ambos os países que viam na aproximação ibérica uma saída para a decadência pós-colonial: uma forma de recuperar o prestígio perdido e enfrentar as novas potências europeias em ascensão. Do lado espanhol, figuras como Sixto Cámara, jornalista e republicano defensor de uma federação ibérica, e Pi y Margall, presidente da Primeira República Espanhola e defensor de uma federação democrática de base republicana, tornaram-se os rostos mais visíveis do iberismo progressista. Do lado português, José Magalhães, político e jornalista defensor do iberismo liberal, Sampaio Bruno, filósofo que refletiu sobre a identidade portuguesa no quadro de uma possível federação ibérica, e Teófilo Braga, republicano fervoroso e primeiro Presidente da República, que explorou a ideia de uma federação de base etnológica entre as duas nações, foram vozes que alimentaram o debate com profundidade e coragem intelectual. Mas a maior expressão veio sempre da cultura, assente em valores para lá do jogo político. Escritores como Fernando Pessoa, José Saramago (quem não se recorda da “sua” jangada de pedra…) e Lobo Antunes, são epítome de uma consciência que entende para lá do óbvio. Entendem que a matriz cultural agregadora da península, teria muito mais a ganhar, se se privilegiasse a cooperação em detrimento da desconfiança e separação.

O iberismo, contudo, nunca chegou a organizar-se num movimento político consistente.

As resistências foram tão poderosas quanto as adesões. Em Portugal, a memória da União Ibérica de 1580, sentida como subjugação espanhola, tornava qualquer proposta de aproximação politicamente perigosa. Os iberismos geraram expectativas de futuro, mas também suscitaram resistências. Pouco mobilizadores em Portugal e em Espanha, nunca se organizaram em movimentos políticos dotados de programas consistentes de ação.

Suscitaram, contudo, largo debate público e incentivaram a comunicação política entre portugueses e espanhóis, alimentando um diálogo transnacional vivo e marcado, como diria T. S. Eliot a propósito das relações entre culturas, por uma perpétua tensão entre atração e repulsa. Mesmo os seus maiores defensores intelectuais não chegaram a construir um programa coerente de ação. O iberismo permaneceu, em grande medida, um ideal de elites — o que não diminui o valor do debate que gerou nem a pertinência das questões que colocou.

Hoje, o iberismo ressurge sob novas formas. A Sociedade Iberista e movimentos como o Partido Íber ou o Movimento Partido Ibérico mantêm viva a chama de uma integração mais profunda, desta vez no quadro da União Europeia, onde as fronteiras entre os dois países já são mais simbólicas do que reais. A questão já não é política no sentido oitocentista: é cultural, identitária, civilizacional.

Portugal e Espanha são hoje os dois grandes países de língua latina a olhar para o Atlântico, herdeiros de uma tradição de abertura ao mundo que nenhuma outra nação europeia conheceu da mesma forma.

É neste contexto que Grandes Hazañas de los Españoles adquire um significado que transcende as suas fronteiras editoriais. A obra não é apenas um inventário de glórias hispânicas: é um convite a que toda a Península se recorde do que foi capaz. Que Portugal leia este livro — e que escreva o seu próprio. Que o iberismo do século XXI não seja nem fusão nem absorção, mas o orgulho partilhado de quem, vindo de raízes comuns, enfrenta com mais força um mundo que ainda nos precisa. As grandes façanhas ibéricas não pertencem apenas ao passado. Pertencem, no fundo, a quem se atrever a dar-lhe uma continuidade vivida.

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