Cartaz da Romaria d’Agonia 2026 gera debate entre tradição, simbolismo e inovação

A apresentação do cartaz oficial da Romaria de Nossa Senhora d’Agonia 2026 reabriu a discussão sobre a forma como a maior romaria de Portugal se representa visualmente. A obra, assinada pela ilustradora Eva Evita, apresenta a mordoma Mafalda Brandão em perfil, numa composição simbólica onde elementos da festa são integrados na figura feminina, afastando-se da representação fotográfica tradicional.

Micaela Barbosa
1 Jun. 2026 4 mins
Legenda da Imagem:

Romaria d'Agonia

A organização descreve o cartaz como expressão da “riqueza, identidade e significado coletivo do amor”, sublinhando uma leitura contemporânea da romaria enquanto fenómeno cultural, emocional e comunitário.

Uma leitura institucional da romaria

Na apresentação pública, o presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo, Luís Nobre, destacou a romaria como expressão coletiva da identidade local e do trabalho comunitário que a sustenta. “É a expressão maior da capacidade que a comunidade, no seu todo, tem tido de transmitir os valores da Romaria”, afirmou, sublinhando ainda o papel das mordomas e das entidades envolvidas na preservação da tradição.

O autarca destacou também a dimensão imaterial da festa, referindo “todos os parceiros e anónimos que, diariamente, vão cuidando da nossa identidade”, bem como o contributo dos grupos folclóricos e da Comissão de Festas.

No mesmo contexto, Luís Nobre anunciou ainda a delegação da Comissão de Honra da Romaria de 2026 em António Parente da Cruz. A presidência desta comissão cabe, por inerência, ao presidente da Câmara Municipal, mas tem sido ao longo das últimas décadas delegada em personalidades ligadas à promoção do concelho e das festas.

António Parente da Cruz, antigo presidente da Comissão Executiva das Festas, deixa a função no início de 2026, tendo sido substituído por Paulo Carrança. 

Com “cerca de 19 anos” de ligação direta à organização da romaria, o engenheiro de profissão presidiu à Comissão Executiva desde 2018, após um percurso prolongado enquanto membro da estrutura organizativa.

Luís Nobre considerou a nomeação “a melhor forma de reconhecimento e gratidão pelo trabalho de quase duas décadas de Parente da Cruz na Romaria”, sublinhando que este “prestou um excecional serviço às Festas da cidade entre 1999 e 2026”.

A proposta artística

A ilustradora Eva Evita afirma que o projeto nasce da sua ligação pessoal a Viana do Castelo e às festas da cidade, procurando condensar memória, tradição e contemporaneidade numa única imagem. “A minha inspiração vem das festas, vem de pertencer a esta cidade”, referiu, explicando que o ponto de partida foi o perfil da mordoma, entendido como símbolo coletivo da romaria.

Segundo a autora, foram integrados elementos do traje e da vivência festiva na composição, através de uma reinterpretação gráfica de tecidos, bordados e peças tradicionais. “O vermelho transmite toda esta emoção e é arrojado no sentido de marcar uma rutura com os cartazes anteriores”, afirmou, acrescentando que a opção recupera também uma tradição histórica da romaria, que no início do século XX recorria frequentemente à ilustração.

A reação da mordoma

A mordoma da edição de 2026, Mafalda Brandão, considera que a sua representação ultrapassa o plano individual e assume uma dimensão coletiva. “Estava com algum receio de não me conseguir ver e não conseguir parecer que era eu, mas a Eva teve muito cuidado e pôs ali o meu perfil”, afirmou. “Ao olhar identifico-me e achei muito bonito o facto de ela ter colocado dentro de mim tudo aquilo que faz a Romaria maior de Portugal.”

Para a mordoma, o cartaz representa também outras mulheres ligadas à festa. “Se não me reconhecerem a mim, vão reconhecer as mulheres, a mulher que faz parte da Romaria, a mulher que faz a Romaria”, disse, sublinhando que a imagem marca simbolicamente o início do ciclo festivo.

Emoção e identidade

A ilustradora destacou ainda o caráter emocional do projeto. “Nasci em Viana do Castelo e desde pequena que assisto a esta festa com emoção e carinho. Criar este cartaz foi um processo muito emocional para mim”, referiu.

Eva Evita defende que a proposta procura equilibrar tradição e contemporaneidade. “Este cartaz é uma homenagem a Viana e a tudo o que sentimos quando chegamos às festas. É uma tentativa de equilíbrio entre tradição e atualidade”, acrescentou.

Debate público

A opção estética gerou reações divididas, sobretudo nas redes sociais. Parte das opiniões contesta a ausência de uma representação mais literal da mordoma e considera que elementos centrais da romaria, como a ligação ao mar e à comunidade piscatória, ficam menos evidentes na composição.

Outras vozes valorizam precisamente a abordagem simbólica e a rutura com modelos mais convencionais, defendendo uma leitura mais contemporânea da identidade da festa.

Algumas intervenções institucionais reforçam essa perspetiva de pertença coletiva, sublinhando que a romaria “vive em cada um de nós” e que “somos todos parte desta tradição”.

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