Ataques de lobo mobilizam produtores. PS e BE pedem esclarecimentos ao Governo

Os ataques atribuídos ao lobo-ibérico a efetivos pecuários continuam a motivar preocupações entre produtores, partidos políticos e organizações ambientais, levando a pedidos de esclarecimento ao Governo sobre indemnizações, medidas preventivas e proteção da biodiversidade.

Micaela Barbosa
5 Jun. 2026 5 mins
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Bruno Arrojado

As reações dos produtores surgem depois de a ministra do Ambiente e Energia anunciar que o Governo prepara um novo decreto-lei para reforçar a proteção do lobo-ibérico, garantindo que a espécie continuará protegida em Portugal.

Perante essa perspetiva, a União de Produtores de Gado Lesados pelos Lobos (UPGALL) afirma que os criadores de gado estão “no limite da pouca paciência que lhes resta”.

“As últimas notícias sobre a proteção do lobo colocam ao rubro quem vive o pesadelo constante deste tumor maligno da pecuária extensiva”, refere a organização numa nota.

O porta-voz da UPGALL, Orlando Gonçalves, disse que continuam a chegar semanalmente relatos e imagens de animais mortos ou feridos em ataques atribuídos ao lobo.

Os produtores recordam que estiveram na Assembleia da República, em 13 de maio, para expor a situação aos deputados da Comissão de Agricultura e Pescas e anunciaram um convite aos parlamentares para acompanharem, a 23 de junho, a tradicional marcação anual dos garranos na serra de Santa Luzia, em Viana do Castelo.

Segundo Orlando Gonçalves, e de acordo com estimativas dos criadores, o efetivo de garranos daquela área, que já terá rondado os mil animais, poderá estar reduzido a cerca de 300 exemplares.

PS quer ouvir ministros

Também esta semana, a Comissão de Agricultura e Pescas aprovou por unanimidade um requerimento do PS para a audição conjunta da ministra do Ambiente e Energia e do ministro da Agricultura e Mar.

Os socialistas pretendem obter esclarecimentos sobre os ataques de lobo-ibérico a explorações pecuárias, o funcionamento das indemnizações, as medidas de prevenção e a atuação do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

No requerimento, o PS refere que “produtores, associações e entidades técnicas têm manifestado preocupação crescente com a intensificação dos ataques e com dificuldades persistentes no acesso aos mecanismos de compensação”.

Os deputados citam ainda um relatório da Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Raça Churra Galega Mirandesa, segundo o qual mais de 120 ovinos terão morrido ou ficado feridos no Planalto Mirandês entre junho e outubro de 2025.

Segundo o PS, os testemunhos recolhidos na audição parlamentar de 13 de maio apontam para problemas “mais graves, mais extensos e mais estruturais” do que inicialmente se supunha, incluindo atrasos nos processos indemnizatórios e dificuldades administrativas associadas à articulação entre o IFAP e o ICNF.

Os socialistas defendem que a proteção legal do lobo deve coexistir com a salvaguarda da atividade pecuária extensiva e dos rendimentos dos produtores.

Bloco questiona alterações ao PEPAC

Já o Bloco de Esquerda apresentou uma pergunta ao Governo sobre alegadas alterações ao Plano Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC) propostas pelo Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP) do Ministério da Agricultura.

O partido refere preocupações manifestadas por 21 organizações ambientalistas, entre elas a Coligação C7, a Palombar, a Rewilding Portugal e a Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente (CPADA).

Segundo estas entidades, as alterações em análise poderão eliminar referências explícitas à legislação de conservação da natureza em determinadas medidas de apoio à biodiversidade.

Para o Bloco, caso se confirme essa alteração, poderá abrir-se a possibilidade de beneficiários condenados por crimes ou contraordenações ambientais graves continuarem a receber apoios públicos associados à conservação da natureza.

O partido quer saber se o Governo confirma as alterações, qual a sua fundamentação e se está disponível para divulgar uma versão comparada das propostas.

Os bloquistas questionam ainda a compatibilidade dessas mudanças com o compromisso assumido pelo Governo de manter a proteção do lobo-ibérico e com os objetivos do Programa Alcateia 2025-2035, aprovado no final do ano passado.

Espécie protegida e em declínio

As organizações ambientalistas lembram que o mais recente censo nacional aponta para um declínio da espécie em Portugal.

O lobo-ibérico é uma espécie protegida em Portugal desde 1988 e está classificado como “Em Perigo” no Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental.

De acordo com o mais recente Censo Nacional do Lobo, relativo ao período 2019-2021, a espécie ocupa atualmente cerca de 20% da área de distribuição que tinha no início do século XX.

Os dados indicam também uma redução de 8% no número de alcateias e de 23% na área de ocorrência face ao levantamento de 2002-2003.

Ao mesmo tempo, estudos científicos têm apontado os garranos como uma das principais presas do lobo em algumas zonas do noroeste da Península Ibérica, podendo representar até 80% da sua dieta.

Os investigadores consideram que esta espécie funciona como uma “presa tampão”, ajudando a reduzir a predação sobre bovinos, ovinos e caprinos, mas alertam igualmente para a pressão crescente sobre as populações de garranos.

c/ Lusa

Tags Política

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