IPVC celebrou 53 anos da ESS. António Feijó defendeu educação “mais ampla” e disse que “todas as pessoas gostam de saber”

O Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC) assinalou os 53 anos da Escola Superior de Saúde (ESS-IPVC) com uma cerimónia marcada por homenagens, números que ilustram o crescimento da instituição e uma reflexão sobre o futuro da educação e da formação em saúde.

Micaela Barbosa
27 Mai. 2026 5 mins

A sessão reuniu dirigentes académicos, autarcas, docentes, antigos alunos e estudantes, num momento em que foram destacados os desafios do ensino superior e o papel da ESS-IPVC na qualificação de profissionais de saúde ao longo de mais de cinco décadas.

Na abertura da cerimónia, o diretor da escola, Luís Graça, traçou um retrato da evolução da escola desde a sua fundação, sublinhando o impacto da instituição no território e no sistema de saúde. “Celebramos 53 anos de uma escola que cresceu com o território e com as necessidades das pessoas”, afirmou, destacando que milhares de profissionais formados pela instituição integram hoje unidades de saúde em todo o país e no estrangeiro.

Luís Graça salientou ainda os indicadores atuais da escola, referindo o número de cursos, projetos de investigação e protocolos institucionais desenvolvidos ao longo dos últimos anos. “A ESS-IPVC tem sabido responder às exigências de um sistema de saúde em permanente transformação”, salientou.

Na intervenção seguinte, a presidente da Associação de Estudande, Valentina Bravo, destacou o papel dos estudantes na construção da identidade da instituição, defendendo uma escola “mais próxima, inclusiva e humana”. “Esta é uma instituição feita de pessoas, de relações e de compromisso”, afirmou, acrescentando que os estudantes “continuam a ser o centro da missão da escola”.

O vice-presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo, Manuel Vitorino, centrou a sua intervenção nos desafios estruturais do ensino superior público, alertando para as dificuldades financeiras e burocráticas enfrentadas pelas instituições. “As limitações financeiras, a pressão burocrática e a constante interferência das tutelas são hoje obstáculos reais à autonomia das instituições”, afirmou. Neste sentido, o autarca defendeu maior estabilidade no financiamento e mais capacidade de decisão para o ensino superior politécnico, considerando que as instituições “não podem continuar a fazer mais com menos”.

Já o presidente do IPVC, Carlos Rodrigues, destacou a ligação da ESS-IPVC à comunidade e apresentou indicadores relativos à empregabilidade e à ligação ao sistema de saúde regional. “A ESS-IPVC não se limita a formar profissionais. Tem uma responsabilidade social e humana junto da região”, afirmou, sublinhando a elevada taxa de integração dos diplomados no mercado de trabalho e o reconhecimento crescente da escola pelas instituições de saúde.

Carlos Rodrigues referiu ainda a importância da formação multidisciplinar na área da saúde, defendendo que “competência técnica e sensibilidade humana têm de caminhar juntas”.

O momento central das comemorações foi a conferência de António Feijó, presidente do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian e professor emérito da Universidade de Lisboa, convidado para refletir sobre o tema “Algumas Ideias Nem Sempre Concordantes sobre Educação”.

Apresentado como uma das figuras mais relevantes da vida académica e cultural portuguesa, António Feijó começou por recordar o contexto educativo português durante a ditadura, sublinhando os baixos níveis de escolarização existentes até aos anos 70. “Até 1973, a taxa real de escolarização no ensino secundário em Portugal foi sempre inferior a 5%”, mostrou, acrescentando: “Apenas um em cada 100 portugueses com mais de 25 anos tinha ensino superior.”

Apesar de considerar Portugal “uma história de sucesso” no alargamento do acesso ao ensino, António Feijó defendeu que a educação não pode limitar-se à formação técnica ou profissional. “Todas as pessoas gostam de saber”, afirmou, recuperando uma reflexão de Aristóteles sobre a curiosidade humana e o desejo de conhecimento.

Grande parte da intervenção centrou-se no papel da Fundação Gulbenkian na democratização do acesso à cultura e à educação, com especial destaque para o programa das bibliotecas itinerantes criado em 1958.

António Feijó recordou que o projeto funcionou durante 44 anos, percorreu 68 concelhos e serviu cerca de 1,27 milhões de pessoas. “As carrinhas levavam livros a localidades onde muitas vezes não existia qualquer acesso à leitura”, explicou.

O responsável evidenciou ainda os programas de bolsas da Gulbenkian destinados a estudantes economicamente vulneráveis. Atualmente, a fundação atribui 500 bolsas anuais a alunos do ensino superior abrangidos pela ação social escolar. “A nota do último classificado que recebeu uma destas bolsas foi 17,8”, sublinhou, considerando que os números demonstram “o imenso contingente de estudantes que necessita deste tipo de apoio”.

Ao longo da conferência, António Feijó criticou o modelo excessivamente especializado do ensino superior português, defendendo uma formação universitária mais transversal, inspirada no modelo anglo-saxónico das liberal arts. “O que nós queremos é perceber se a pessoa pensa, se tem capacidade de descrever alguma coisa de modo preciso”, afirmou.

Para o professor, a universidade deve formar pessoas capazes de compreender diferentes áreas do conhecimento e desenvolver pensamento crítico, e não apenas técnicos especializados numa única disciplina.

Numa das passagens mais marcantes da sessão, descreveu os livros como uma forma de diálogo com “as pessoas que mais pensaram na história da humanidade”. “Se você quer ter acesso ao que melhor se pensou na história da humanidade, então só tem um lugar: os livros”, afirmou.

Já na parte final da conferência, evocou memórias da infância em Viana do Castelo e falou da dureza da pesca do bacalhau portuguesa, descrevendo-a como “a vida mais árdua e difícil à face da terra”.

António Feijó terminou com uma reflexão sobre a aprendizagem fora da escola, defendendo que experiências comunitárias, como o desporto, também moldam o carácter e o sentido de justiça.

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