De Olhos Vendados. Duas crianças abandonadas. Uma sociedade doente.

Filipe Fernandes
21 Mai. 2026 3 mins

Há histórias que nos entram pela pele dentro. Não pelo choque da notícia, nem pela curiosidade mórbida que tantas vezes domina os dias de hoje, mas porque nos obrigam a olhar para aquilo em que nos estamos lentamente a transformar enquanto sociedade.

Há poucos dias, duas crianças francesas, Barthelemy e Zacharie, de apenas 3 e 5 anos, foram encontradas na Estrada Nacional 253, entre Alcácer do Sal e a Comporta. Sozinhas. Perdidas. Assustadas. A chorar junto à estrada, numa zona isolada, sob temperaturas elevadas e num silêncio que deve ter parecido infinito para dois meninos tão pequeninos.

Foi um padeiro da região, Alexandre Quintas, a encontrá-los quando seguia para o trabalho. Parou. Aproximou-se. Percebeu que algo estava profundamente errado. Levou-os para um local seguro, deu-lhes água, comida e aquilo que talvez mais precisassem naquele momento: humanidade.

Segundo o relato das próprias crianças, tudo lhes foi apresentado como um “jogo”. Foram vendados e levados para o meio do mato à procura de um brinquedo. Quando retiraram as vendas, estavam sozinhos.

É impossível ficar indiferente a uma história destas. E confesso que, ao ler os detalhes, senti uma tristeza difícil de explicar. Não apenas pelo que aconteceu àquelas crianças, mas porque este episódio parece ser também um retrato doloroso do estado emocional e humano da sociedade em que vivemos.

Não conhecemos toda a história. Não sabemos os dramas, os problemas, os desequilíbrios ou os sofrimentos que podem existir por detrás de um ato desta dimensão. E talvez devamos ter prudência antes de cairmos na tentação do julgamento fácil, tão comum nos tempos atuais. A vida humana é complexa, feita de feridas invisíveis, doenças silenciosas, desespero e solidão.

Mas há uma verdade que permanece: duas crianças inocentes ficaram entregues ao medo, ao abandono e a uma marca que provavelmente carregarão para sempre nas suas vidas. E talvez a parte mais inquietante seja perceber que esta história não fala apenas de duas crianças. Fala de todos nós.

Vivemos numa sociedade cada vez mais cansada, mais distante, mais fechada sobre si própria. Depois da pandemia, acelerou-se algo que já vinha crescendo: o individualismo, a pressa, a incapacidade de olhar verdadeiramente para o outro. Como no “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, parece que caminhamos todos de olhos abertos, mas emocionalmente vendados. Não usamos o nosso tempo para escutar, para reparar, para perceber quem ao nosso lado está a cair, em silêncio.

Talvez o maior perigo dos nossos dias não seja apenas a violência extrema. É a indiferença. É habituarmo-nos à dor dos outros. É passarmos ao lado. É achar que os problemas dos outros não nos dizem respeito.

No meio desta história dura, há, porém, um pequeno sinal de esperança: alguém parou. Alguém reparou. Alguém decidiu ajudar.

E é precisamente aí que talvez esteja a resposta para aquilo que nos falta enquanto comunidade. Estarmos atentos uns aos outros. Saber ouvir. Perceber quem está em sofrimento antes que seja tarde demais. Dar tempo, presença, empatia e cuidado. Ser menos egoístas e mais humanos.

Porque uma sociedade que deixa de cuidar dos seus torna-se inevitavelmente uma sociedade doente.

No final, talvez Barthelemy e Zacharie nos deixem uma pergunta silenciosa, mas poderosa: quando alguém ao nosso lado se perde no meio do caminho, vamos continuar a passar sem parar?

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