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Ana Isabel Lopes: “A história das comunidades mostra-nos que o litoral nunca foi estático”

Ana Isabel Lopes estuda a forma como comunidades costeiras do Minho lidaram, ao longo de séculos, com a erosão, o avanço das areias e o desaparecimento de lugares hoje esquecidos. A historiadora ambiental, natural de Chafé e investigadora na Universidade do Porto, cruza história, ambiente e memória para perceber como o passado ajuda a ler os riscos do presente.

Micaela Barbosa
6 Mai. 2026 6 mins

Notícias de Viana (NdV): O seu percurso cruza História com Ambiente, duas áreas que nem sempre aparecem ligadas. Em que momento percebeu que essa interseção fazia sentido para si?

Ana Isabel Lopes (AIL): Depois da licenciatura em História entrei no mestrado em História Local, e como sou natural de Chafé comecei a olhar para a história da própria freguesia. Apercebi-me de que havia um cruzamento muito forte entre História e Ambiente, sobretudo na questão da erosão costeira e do avanço das areias.
Percebi também que estes processos não estavam suficientemente estudados. A partir daí comecei a trabalhar a relação entre comunidades, território e ambiente, e sobretudo a forma como essas comunidades resistem e se adaptam ao meio.

(NdV): Para quem nunca ouviu falar da área, como definiria História Ambiental de forma clara, mas sem perder rigor?

(AIL): É o estudo da relação entre o ser humano e a natureza ao longo do tempo. Essa relação pode ser muito antiga, visível em vestígios arqueológicos, ou chegar até ao presente.
Inclui também conflitos mais recentes, como resistências locais a atividades industriais ou mudanças no uso do território. Em Viana do Castelo, por exemplo, há casos de contestação ligados ao impacto ambiental de fábricas e à transformação da paisagem.

(NdV): O que distingue um historiador ambiental de outros investigadores que estudam alterações climáticas ou território?

(AIL): O que distingue é precisamente a centralidade do tempo histórico. O historiador ambiental não analisa apenas o fenómeno ambiental em si, mas o contexto em que ele acontece.
A defesa de uma árvore, a plantação de floresta ou a gestão do território não podem ser separadas das políticas económicas, industriais ou agrícolas de cada época. É sempre ambiente, mas enquadrado historicamente.

(NdV): O desaparecimento de lugares como São João de Desterres ou Santa Maria das Areias tem algo de quase invisível na memória coletiva. O que a levou a investigar estes casos?

(AIL): Foi precisamente essa invisibilidade que me chamou a atenção. Eram lugares pouco estudados e que, na memória coletiva, quase desapareceram.
Uma das dificuldades foi até perceber quando desapareceram, porque existem várias datas e versões. Tentei recuar ao período mais antigo possível e enquadrá-los entre os séculos XV e XVI, num contexto de forte transformação climática.
Mais do que reconstruir apenas o desaparecimento, interessou-me perceber o papel das comunidades, que muitas vezes não é valorizado nestes processos de erosão costeira.

(NdV): Esses episódios devem ser entendidos como acontecimentos isolados ou como parte de padrões mais amplos de transformação costeira?

(AIL): Não são casos isolados. Fazem parte de padrões mais amplos de transformação e adaptação do litoral ao longo do tempo.

(NdV): Até que ponto a ação humana, ao longo da história, contribuiu para as alterações do litoral em Viana do Castelo?

(AIL): Há sempre uma combinação entre fatores naturais e ação humana. Existe

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