As feiras do livro e das artes em Viana do Castelo e a Festa do Livro destinada aos estudantes em Caminha oferecem, ao longo do mês de abril, um retrato revelador de como o livro continua a ocupar um lugar central na vida cultural de várias comunidades. Mas, longe de serem meros eventos de promoção, estes encontros surgem num momento em que os indicadores mais recentes sobre hábitos de leitura e o mercado editorial em Portugal sugerem tensões e oportunidades que ultrapassam o calendário institucional.
Organizada pelo município de Viana do Castelo, a festa do livro e das artes “Ler em Viana” arrancou no dia 18 de abril, com 32 ‘stands’, 14 livreiros e a presença de 66 editoras, propondo conversas, concertos, teatro e recitais de poesia até 26 de abril.
A programação inclui atividades para crianças, jovens e adultos, desde leituras infantis a debates sobre literatura e política, e destaca-se pela entrada gratuita e programação contínua entre as 14:30 e as 23:30.
Em Caminha, a 8.ª edição da Festa do Livro (de 14 a 24 de abril) aposta fortemente no público escolar e estudantil, convertendo espaços públicos em livrarias efémeras e promovendo teatro e encontros com autores, na tentativa de reforçar o gosto pela leitura desde a infância.
Estes eventos ocorrem num contexto em que o mercado do livro português continua a crescer, mas onde a tradução desse crescimento em literacia e hábitos consolidados de leitura permanece um desafio.
Segundo dados mais recentes da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, em 2025 foram vendidos 14,8 milhões de livros em Portugal, um aumento de 6,9% face a 2024, num mercado que movimentou cerca de 217,5 milhões de euros, também um crescimento em relação ao ano anterior. Contudo, este avanço foi fortemente impulsionado pelos livros infantis e de colorir, sinalizando que o peso de alguns nichos pode não traduzir um aumento estrutural da leitura pela população em geral.
O estudo mais recente sobre hábitos de compra e leitura em Portugal mostra que, embora “cerca de 76% dos portugueses” digam ter lido pelo menos um livro no último ano, apenas “58% compraram livros” nesse período. A média de livros lidos por pessoa caiu ligeiramente (para cerca de 5,3 livros por ano), e mesmo entre leitores assíduos a média de títulos lidos diminuiu.
Estes dados sugerem que o mercado editorial cresce, mas a compra e a leitura de livros entre toda a população não se consolidam como hábito de consumo regular para uma parcela significativa dos portugueses. Parte deste fenómeno pode dever-se a outros formatos e hábitos culturais que competem pelo tempo de lazer, desde redes sociais a televisão e outras formas de entretenimento, uma tendência apontada em estudos recentes sobre o tema.
Outro aspecto relevante é a evolução das preferências de formato. Embora o livro físico continue dominante, a leitura digital tem vindo a ganhar espaço, com uma proporção crescente de leitores a utilizar tablet, e‑reader ou telemóvel para aceder a conteúdos.
A Festa do Livro de Caminha, dirigida sobretudo a estudantes, vinca “uma aposta cultural” que vai ao encontro do crescimento no interesse pela leitura entre os mais jovens, sobretudo na faixa dos 15 aos 24 anos. Eventos que envolvam escolas, clubes de leitura e atividades performativas sobre textos podem ajudar a reforçar esse interesse, transformando-o em hábito duradouro.
No entanto, os números levantam questões mais amplas sobre a formação de leitores e literacia. Estudos internacionais de competências também indicam que “uma fatia considerável de adultos portugueses apresenta dificuldades em interpretar textos mais complexos”, um indicador que desafia esforços isolados de promoção do livro e reforça a importância de políticas integradas de leitura desde o ensino básico até à idade adulta.
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